Traficantes mortos em frente à Praça dos Elementos Químicos…E nínguém comenta…

8 07 2009

São Paulo, zona Leste, 21h16 de uma terça-feira. Para ser mais exato, da terça-feira. 30 de junho de 2009. Foi no dia em que dois traficantes, abordados por uma viatura da Força Tática do 28° Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, resolveram mirar suas pistolas ponto 40 contra as reluzentes lâmpadas giratórias da viatura e, mais precisamente, sobre os ocupantes que se encontravam sob elas. O primeiro disparo desencadeou a reação imediata dos policias.

Na favela Maria Luiza, onde ocorreu este tiroteio, a polícia não coleciona  muito crédito dos moradores. A versão descrita acima é oficial. Ou seja, partiu da Polícia Militar e Civil do Estado. É a versão que, pela manhã, vai parar nas mancehtes do jornal.

O crime ocorreu na rua Mariz Sarmento, numeral 100, no Parque do Carmo, local próximo à favela Maria Luiza. O “crime”, no caso oficial, é o tráfico de entorpescentes e o porte ilegal de arma de fogo, além do atentado contra os fardados. Alvejados, os traficantes foram mortos pela PM.  A morte deles não é exatamente  considerada um crime. Eles reagiram à abordagem. Naquele momento, não havia testemunhas no local.

Duas pistolas ponto 40, os mesmos modelos recebidos com alegria por policiais do 11° batalhão de Cianorte, cidade do interior do Paraná, foram apreendidas. O capitão Elias Ariel, da cidadezinha paranaense, comemorou:  ” Essa pistola não atravessa o corpo de quem for atingido, garante mais segurança para a população”. Precioso argumento, não fosse a possibilidade de se atingir um cidadão comum tão inerente aos pensamentos do militar.

Além das automáticas, os dois traficantes mortos portavam munições, comprimidos de ecstasy e pinos de cocaína. Talvez isso faz com que, aqui, sejam denominados “traficantes”. No 53° DistritoPolicial, onde o caso foi registrado, não souberam informar a quantidade exata das drogas apreendidas. Elas foram levadas ao Instituto de Criminalística, no Butantã. Enquanto os corpos caídos, resultado do tiroteio, foram ”socorridos” no PS Santa Marcelina. Não teve jeito, entraram em óbito.

O delegado me recomendou: “Durante horário comercial, entre em contato com a Secretaria de Segurança Pública para maiores detalhes”. Apesar da dica aparentar grande potencial solucionador, não a segui. Depois de andar tanto, a informação já não é a mesma.

Curioso é que a abordagem policial, o tiroteio, as mortes, a apreensão das armas e das drogas, tudo aconteceu em frente a um mesmo local: a Praça dos Elementos Químicos, zona Leste de São Paulo. Seria cômico se não fosse trágico, e vice-versa.





Diploma para jornalistas gera discussão aqui, ali, lá, acolá, a, ante, até, após, com, contra, de ,desde, hein…

24 06 2009

- Qualé. Qualé mermão, diploma pra quê?

- Pô parceiro, to fazendo faculdade há trocentos anos e, de repente, um juiz ruim de fama vem tirá onda?

- Ruim de fama?

- Porra, num fode mermão. O cara foi advogado geral da União na época do FHC, depois nomeado pra ministro do Supremo Tribunal, tio…pelo mermo presidente…E ainda inventou um habeas corpus pra soltar o Dantas, que roubou meio mundo e tá boneco…

- Carai, como cê sabe de tudo isso?

- Wikipedia…

- Pode crê.

- E tem mais…

- Falaí…

- Se jornalista num tiver diploma, quem é que vai garantir a informação que tu lê no jornal?

- Mas diploma não garante é nada…

- Mas é menos mal, né parceiro? Até poco tempo dava cela individual e tudo…

- Mermão! Liberdade de expressão maluco! E se o engenheiro quisé fazer um editorial sobre o trânsito, ele num pode? Só porque num tem diploma?

- Pode pô, editorial é outra coisa. Se quisé, pode. Mas o jornalista precisa é ter noção do que faz. Não é quarqué um não….Se não, num tinha nem jornal…….Era tudo na net. Médico não precisa de diploma? Então. É igual. A gente pensa que não, mas a informação mexe tanto cum nossa vida quanto uma doença, tio. A gente é educado por ela. Memética, parceiro…Digita lá no google pá tu vê.

- Que, mano? Jornal nunca matou ninguém queu saiba…Só mata musquito.

- Claro, ninguém vê. Não é físico…Mas pode tê certeza que noventa por cento dos policias mortos em expediente tiveram esse fim porque não eram aptos para o trampo. O problema é que assistiram muita televisão e ficaram encantados por um trabalho que não era pra eles. A sedução do inferno, camaradinha…

- Tá sonhando aí…

- É quente tio…A maioria das mães que tiveram os filhos mortos durante a madrugada: Culpa do Datena! De tanto assistirem aquelas porras que repercutem nos jornais impressos, ficaram tão preocupadas que transferiram toda essa energia para os filhos….Aquele “Juízo, hein”, manja? Cheio de carga energética…Lei da atração titio! Nunca viu não?

- Caralho, tá sonhando mermo…

- Mermão, você acha mermo que num precisa de diploma?!

- Você quer ser jornalista?

- Tò estudando pra isso, pô…

- Então, começa pelo português…

- Português é linguagem rapá, o que importa tá na mente.

- Mano, essa porra de Datena e os caraio….isso aí que cê falô…

- Ahn…

- Os cara que faz essa porra toda têm tudo diploma. Faculdade não serve pá porra nenhuma.

- Se pá. Pode crê. É só pá sugá o nosso dinheiro mermo.

-Então..

- Tinha que fazê uma prova tipo OAB…

- Aí sim, quem sabe. Jornalista pra mim é que nem músico, pintor…Tem que tê talento…

- É, mermão! Diploma de cú é rola! Tem que havê a revolução do talento!

- Só….cada um se encaixa na onde tem talento. E a humanidade vive em paz, feliz…

- Pode crê. Mas…

- É, eu sei. Utopia…

- É.

- Vamo pra facul?

- Vamo aí, demorou….tenho que pagá  hoje…800 conto.

- Sujeira.





Desocupação da favela: movimento artístico expõe a realidade dos moradores expulsos da Jardim Edith

29 04 2009

Mais de 300 famílias neste momento arrancam os poucos móveis e pertences guardados há mais de 15 anos sob o teto de suas residências, localizadas na favela Jardim Edith. Teto que já não existe em alguns dos barracos. Isso porque ali, na esquina das avenidas Berrini e Espraiada (alterada carinhosamente para Jornalista Roberto Marinho, em uma tarde do verão de 2004, por decisão da ex-prefeita Marta Suplicy), fiscais da Prefeitura e policiais militares do Governo Estadual avançam marretas sobre as telhas e as finas paredes de tijolos.

Muro da sala de estar após marretadas do Governo.

Muro da sala de estar após marretadas do Governo.

Em cada parede, abrem um grande buraco. O objetivo é deixar os imóveis equilibrados apenas sobre as quinas de muro. Pilares que logo serão arrastados por máquinas truculentas, conduzidas provavelmente por moradores de uma outra favela, em um outro terreno, em outra latitude, outra longitude. Porém, nada impede que estes também sejam despejados. Da mesma forma. Basta um dos seus patrões engravatados-municipais perceber o potencial de crescimento econômico do local. Basta o jornalista da avenida supracitada decidir pela construção de uma sucursal de sua emissora ao lado dessa favela. Basta apenas que os especuladores imobiliários reflitam cifrões nos olhos e que o governador do Estado alie-se à família de um soberano da imprensa brasileira e, a pedido dela, construa uma ponte inútil próximo dali ou de qualquer favela, qualquer lugar. São apenas suposições meramente calculadas. Mas a política informal existe, e corre pelos corredores das grandes empresas e por outros menores: os dos ouvidos dos gananciosos. Até que a informação chegue ao cérebro. O plano é simples: erguer um monumento que dá valor à região e, depois de os preços de terrenos estacionarem lá em cima, despejar os moradores pobres do local, indesejados pela nova população que irá ocupá-lo: a elite da cidade de S. Paulo.

Superfaturada ou não, o fato é que a gigante vazia custou R$ 233 milhões aos cofres públicos. Cascalho suficiente para construir mil quilômetros de ciclovias em São Paulo, manter por dez anos faixas de pedestre pintadas nitidamente em todas as esquinas da metrópole, construir 100 quilômetros de corredores de ônibus (hoje são 115km), além de inaugurar centenas de praças arborizadas. Dados sugados do site www.apocalipsemotorizado.net/2008/04/29/um-monumento-a-sociedade-do-automovel. Com essa grana também dá para pagar inúmeros ‘cheques-despejo’, milhares de marretas de ferro pesado e organizar trocentas licitações para a contratação de máquinas demolidoras. A opção está sob guarda daquele que você elegeu na última eleição.

Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira - investimento (e concreto) suficiente para a construção dos conjuntos habitacionais ausentes na cidade.

Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira - investimento (e concreto) suficiente para a construção dos conjuntos habitacionais ausentes na cidade.

Os moradores da favela Jardim Edith estão desolados. Sem opção, receberão um cheque-despejo no valor de R$ 8 mil da administração municipal por meio de recursos concentrados na Secretaria de Habitação. E assim deitarão em camas distantes. São pagos para sumir dali. Afinal, estão encravados no coração de uma região considerada nobre. Que se tornou nobre. Encontram-se cercados por edifícios resplandecentes, onde elevadores comportam diálogos compostos por até três idiomas diferentes. Quando trabalhei no décimo andar de um desses, para um patrão que acordava todas as manhãs pensando no que fazer para eleger o atual prefeito, que expulsa os moradores da favela através de articulações com a Câmara Municipal, desci à rua durante um horário de almoço e observei. A favela fica muito próxima ao hotel Hilton, ao World Trade Center paulistano, e à Rede Globo de Televisão. Enquanto os funcionários desses ambientes repletos de ar condicionado – eu era um deles, no caso – procuravam uma vaga para almoçar nos milhares de restaurantes e lanchonetes que pipocaram na região nos últimos anos, resolvi dar uma olhada na ala em que ninguém vai, a favela Jardim Edith. Ali, por R$ 5,00, comi arroz, feijão, alface, tomate e suculentos pedaços de frango frito caseiro. Tudo acompanhado por 600 ml de tubaína gelada.

Sofás descansam onde antes faziam descansar.

Sofás descansam onde antes faziam descansar.

Agora, moleques que foram criados no local caminham descalços sobre lascas de telha quebrada, fios elétricos descascados e objetos inutilizados deixados para trás pelos moradores expulsos. Cada barraco pré-danificado pelo poder público corre o risco de desabar a qualquer momento. Os moradores já experimentam a nostalgia de seus lares. Sentem falta dali antes de irem embora. A maioria passará a  compor outras favelas. Alguns ocuparão a casa de parentes e outros decidirão na hora o que fazer. Mas enquanto não arranjam um futuro definitivo, assistem a vizinhança desmoronar a cada segundo, a cada marretada. A favela inteira será reduzida a pó.

Restos de sala, cozinha, banheiro e quartos escorrendo pela porta de entrada.

Restos de sala, cozinha, banheiro e quartos escorrendo pela porta de entrada.Desocupação da favela Jardim Edith: o sonho da casa própria vira entulho.

O grafite e a arte de rua tomou conta da favela no domingo de feriado, 19 de abril de 2009. Como maneira de protestar contra a covardia e a celebração da política higienista praticada por Kassab, Serra e outros da mesma laia, cerca de 30 artistas se reuniram num movimento repleto de tinta e de mensagens contra a expulsão das famílias. Organizado por Mundano, artista que periodicamente sai às ruas com tinta nas mãos e mensagens em pensamento prestes a serem pintadas, a conferência de grafiteiros patrocinou a alegria das crianças jardim-edithianas. Acreditando na capacidade da modificação das diretrizes sociais a partir da expressão artística e do poder que as mensagens em tinta têm em provocar a reflexão no povo embutido em mandamentos duvidosos de um governo eleito pela televisão, Mundano também criou protestos contra a vizinha monumental Ponte Octávio Frias de Oliveira. Na ocasião, o artista rogou por “menos concreto, mais árvores”.

Ponte pela metade: "menos concreto, mais árvores", intervenção de Mundano. Foto: Thiago Ackel

Ponte pela metade: "menos concreto, mais árvores", intervenção de Mundano. Foto: Thiago Ackel

Mundano colorindo muros que em poucos dias estarão no chão. Foto: Denise Aires

Mundano colorindo muros que em poucos dias estarão no chão. Foto: Denise Aires

Estive na favela por poucas horas. Logo percebi que a paisagem caracteriza a ausência do Estado naquele pedaço de chão. A eletricidade é gerada por meio de gatos e o esgoto é despejado diretamente em galerias de águas pluviais, o que faz com que todo resíduo proveniente da favela siga diretamente para os rios Pinheiros e Tietê. A Secretaria de Habitação afirma que no local será construído um conjunto habitacional com vagas para mais de uma centena de famílias. Assim, os antigos moradores terão a chance de voltar ao lar. Eles ganharão descontos na compra dos apartamentos.
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Mãe e filhos caminham sobre quintal de imóvel destruído.

Mãe e filhos caminham sobre quintal de imóvel destruído.

 

As fotos aqui postadas sem os devidos créditos são de minha autoria.





Piscina que mata a sede de São Paulo corre risco de invasão

16 04 2009

Esta enorme piscina concentra a água distribuída para 52% das torneiras da cidade de São Paulo. É aqui, na Estação de Tratamento de Água Guaraú, localizada na Cantareira, zona norte da capital, que a água utilizada por você para enxaguar os dentes pela manhã ganha transparência, potabilidade segura, e direção.

água para SP

As três tubulações acima sugam de rios do sul de Minas Gerais a água que abastece metade da cidade. Ela chega em alta velocidade, geralmente por apenas dois dos grandes tubos, revezados para manutenção. Depois, segue para o tratamento (piscina acima). Dizem que o governo mineiro já se movimenta em torno do assunto. Quer garantir o abastecimento da grande Belo Horizonte, que cresce a cada dia, e vetar o desvio dos rios mineiros para a metrópole paulista. Receio de deixar , daqui a 20 anos, a mineirada com sede. Mas isso é apenas um rumor.

A água parte da estação depois de ser filtrada e de receber algumas substâncias químicas. Como o cloro e o sulfato de alumínio, que separa resíduos sólidos dos liquidos e garante a límpida gota que pinga na pia durante a madrugada. No espaço filmado por mim (acima) a água está recém separada dos detritos grosseiros da natureza e escorre em direção a um longo filtro de carvão e pedras. Porém, penso que isso pouco interessa para quem acabou de ler a história de uma quase-estupradora da classe média paulistana (post logo abaixo). Desta forma, vamos ao que interessa. Ou melhor, vamos ao que julgo interessante e ao que suguei conscientemente durante essa visita à estação.

No país de Obama – falo dos Estados Unidos – as estações responsáveis pelo abastecimento das grandes cidades são rigidamente protegidas pelas forças armadas. Como quartéis. O motivo: medo. Pavor de Osama Bin Laden invadir uma das fontes de água bruta e misturar qualquer arma química no liquido, da mesma maneira que se mistura nescau no leite. Da mesma maneira que misturou kamikazes talibãs em aviões de 2oo poltronas.

A Estação Guaraú, da Sabesp, parece ser bem protegida. Guardinhas de farda preta e olhar ingênuo rodam sobre Hondas Bros 150 cilindradas pelos cantos do lugar, armados com revólveres calibre 38 e cacetetes de ferro. No entanto, é bem possível invadir o local, delimitado apenas por grades de arame entrelaçado. Um membro de qualquer grupo pseudo-revolucionário contra cultural poderia pular a grade na calada da noite. Vestir-se de preto, despistar os vigilantes e despejar centenas de litros de LSD puro no lago que concentra a água utilizada por meia cidade para cozinhar batatas, lavar os cabelos e refrescar a goela.

Longe de mim lançar ideias pela internet, mas imagine o impacto. Fica claro que o perigo existe. O que não faltam são ativistas-terroristas para o trabalho, que poderia ser considerado até espécie de manifestação artística. Por isso, atenção José Serra: as estações de tratamento de água do Estado são vulneráveis e podem ser alvo de ataques.

Sem mais, deixo a mensagem: feche o chuveiro quando for se ensaboar. A água está acabando, dizem. Mesmo com pessoas morrendo afogadas em enchentes repentinas.

O que falta é permacultura para o povo.





A sinistra fuga de Brenjamin Flouter (nome fictício…

12 04 2009

…mas a história é verídica).

 

Era a noite de uma sexta-feira. Ou de um sábado, não importa. O fato é que fazia calor no fim de semana e, a um quarteirão de distância, na rua de trás, rolava um churrasco. O dono da casa é parceiro ‘das antigas’. Está (ou estava) sempre cercado de belas guapas. Hoje, namora. Tem tatuagens na perna, usa bombeta e definha bons argumentos quando a conversa se volta para os contemporâneos conflitos obscuros da humanidade. Somos da classe média paulistana. Estes churrascos acontecem com variada frequencia. Neles, carne quase não se vê. Porém, cerveja não falta. Nunca. Se não há latinhas no gelo, não há pessoas conversando em volta da piscina. Ou seja, não há confraternização em plena noite calorenta de um final de semana.

Estou há uma hora entre cervejas, cigarros e palavras. E a alguns metros do banheiro interno da casa de tijolos expostos. Preciso ir até lá. Não me lembro, mas antes de me deslocar, provavelmente devo ter largado o cigarro em algum cinzeiro. Mesmo que pela metade. Isso porque a fumaça insisti em atingir meus olhos quando mijo. Algo baseado na física, quando se tem o cigarro equilibrado por algum tempo entre os lábios, a fim de manter as mãos livres.

Antes de alcançar o meu destino, uma voz baixa me chama a atenção. Ela surge do final do corredor escuro, reflete nas paredes brancas e atinge meus ouvidos:

- Oi, vem cá. Deixa eu te falar uma coisa.

Perco a vontade de mijar. É uma das meninas morenas da classe média paulistana. Veste roupas compradas no shopping e usa perfume. É bonita de rosto e gorda de corpo. Me aproximo.

- Oi. E aí?

- Tem uma amiga minha que te achou bonito. Ela quer te conhecer.

Por um momento, lembrei-me das entusiasmantes festas da quinta série.

- Ah é, quem? Mostra quem.

- Vem aqui que eu te falo.

Ela dá passos curtos para trás e eu os sigo em busca da misteriosa amiga tímida, que não veio ter comigo esta conversa. Depois de alguns segundos percebo o porquê dela não vir. O diálogo transcorria em frente à porta de um quarto apagado. E é para esta direção que os passos rebobinados da menina caminhavam, contraindo vagarosamente cada milímetro de fio de carpete marrom.

- E então, fala quem é?

- Sou eu.

De repente, sou tragado para dentro do quarto vazio. Ela me puxa pelo braço e fecha a porta. Passa a chave. Agora, estamos sozinhos, trancafiados sob uma lâmpada apagada. Fico na dúvida: me jogo no sofá e garanto o sexo fácil ou abro a porta e saio correndo. Não sei. Ela chega perto e me beija a boca. Lembro que antigamente os homens sentiam-se atraídos por mulheres grandes, quase obesas. A quantidade de carne era mais valorizada que o formato da cintura. Como se vê em pinturas antigas. Sem pensar mais sobre o assunto, beijo-a. Mas não de maneira tão romântica quanto o verbo parece exprimir. Ali, havia pouca volúpia. E eu sinceramente buscava mais.

Ela tira a blusa. A luz está apagada. Passaram-se dez minutos e agora estou prestes a cair sobre os seios fartos da menina esperta. Enganou-me como ninguém. Deitada no sofá, me chama. Depois destes dez minutos, começo a refletir sobre as circuntâncias e experimento em mim mesmo o princípio da concepção de beleza feminina injetado em mim pelas obras do ocidente. Televisão, propaganda, história em quadrinhos, tudo.

Não sou romântico. Não aqui. Estou no grau e tenho uma garota gorda, semi-nua e praticamente no cio sentada na altura do meu quadril. O pensamento é claro: quero sexo oral. Não sei se por inexperiência, nojo ou por ser uma patricinha da sociedade civil, ela recusa.

- Vamos transar – diz, estirada no sofá sobre algumas roupas que provavelmente foram passadas no mesmo dia e que, agora, já encontravam-se amarrotadas novamente.

Subo as calças, fecho o zíper. Acerto a trava do cinto no segundo furo e procuro a camiseta na escuridão. Vou-me embora.

- Embora para onde?

-Vou lá fora, ué. Para o churras.

- Não vai não…

- Vou.

Tento ir até a porta e ela para na minha frente. Diz que não vou sair. Insisto e tudo acontece da mesma forma. De novo. Novamente. Mais uma vez. Decido então, para desespero da garota, acender a luz.

- Não acende! Não acende!

- Clap.

O som do interruptor foi seguido pelo clarão. Para a minha sorte, a lâmpada não estava queimada. Pelo contrário, era daquelas bem fortes. 100 watts, eu diria. A quase-estupradora se cobre com os braços. Não quer que eu veja suas curvas. Eu não ligo para isso, só desejo sair e pegar uma cerveja. Ela logo veste a blusa e estaciona em frente à porta de madeira patinada.

- Não vai sair.

Vejamos. Eu não agrido mulheres. Jamais. A porta está sob guarda severa de uma menina forte. Para passar por ali, só tirando-a à força. Começo a pensar em outra saída.

Insisto para ela sair da frente. Ela contesta dizendo que não. Quer  ficar ali, comigo. Nada feito. Tento agarrar a maçaneta, ela me empurra. Tento driblar o zagueiro e virar a chave. Ela é indriblável. Desisto desta tática. Logo, altero-a.

- Você não vai me deixar sair mesmo?

- Não.

- Tá bom. Então desisto.

Volto e me sento. Mas logo me levanto, fico em pé. Numa situação de risco, o melhor é ficar em pé. A qualquer momento poderia me arremessar sobre a maçaneta redonda e fugir sem olhar para trás. Mas isso seria um tanto indelicado.

- E aí, me conta da sua vida. Quem é Você?

- Ah, meu nome é X. Você não reparou que eu estava te olhando desde o começo do churrasco?

- Não. – na verdade, eu havia reparado cada momento em que me olhava com os olhos quase cerrados, como quem olha para o sol.

- Hum…

Estamos em pé no centro do cômodo. Um de frente para o outro, numa linda cena de amor. Eu, com as costas viradas para uma janela fechada. Ela, de costas para a porta, de onde não tiro os olhos. A situação já toma ares farsistas. Cada canto do ambiente já foi sistematicamente analisado por mim, na busca por algum instrumento de fuga. Uma chave reserva. Uma vara de pesca, talvez. Não encontro nada. Minha arma é a conversa de lagartixa, o papo furado que rola agora, sobre as coisas da vida. Sei lá.

Ela comenta sobre a enorme coincidência de estudarmos na mesma faculdade. Enquanto diz que nunca me viu pelos corredores e que – para me fazer rir um pouco mais – não vai me deixar sair do quarto de jeito nenhum, eu me aproximo da janela. Em passos tão curtos e demorados quanto aqueles que ela utilizou para me fisgar.

A menina esperta agora está distraída. Abro uma das portas da janela e empurro até que se escancare. Ela mal percebe. Peço um cigarro. Vinda dos lados da piscina, onde a população do churrasco se concentra, a música me chama. Como o rastro de fumaça que toma forma viva e puxa personagens de desenhos animados até as tortas de amora recém-tiradas dum forno. Empurro a outra parte da janela. Do outro lado, uma escada e a porta da frente, alinhadas numa altura não tão significante. Dá para pular.

Conversamos com as duas portas da janela abertas. Ela nem imagina o meu plano.

Todos os meus pensamentos encontram-se pressionados pela situação completamente inédita. Eu jamais havia sofrido uma tentativa de estupro. Quase isso. Agora, minha meta era sair dali.

Atrevida, a moça continua com a conversa mole, aproximando seus lábios famintos do meu queixo. Ensaio alguns falsos afagos. Digo que vou pegar uma cerveja. Ela veta meu movimento, não me deixa sair do quarto. Pára em frente à porta. Ingênua, agora ela está posicionada distante de mim. Eu numa parede, ela em outra. Gargalho em silêncio.

- Tchau!

Passo a perna direita pela janela, olho para a moça. Está furiosa. Passo a perna esquerda e me jogo para a escada, logo abaixo dos meus pés.

Estou livre.

O salto foi um sucesso. Desde criança adoro pular janelas. Era um hobby. Agora, uma necessidade. Voei pelo vão e cai com os dois pés alinhados num contato sincronizado com as pedras beges do chão. Ufa.

Caminho sem olhar para trás, mas – mais uma vez – ela sequestra minha atenção:

- Seu gay !

Quase choro. De rir. Paro, olho. Ela acha que darei meia volta. Jamais. Vou embora, penetrando pela porta da frente.

- Gay! – escuto ao longe e ignoro.

Passo por quadros de arte realista, tapetes aconchegantes e sofás de tecido suave até chegar ao pódio. Nesse momento, estou no churrasco novamente. Agarro uma cerveja como prêmio. De mim para eu mesmo. Afinal, perdi cerca de quarenta minutos dentro do quarto.

Como é boa a sensação de liberdade.

Estou encostado num canto, em meio à uma roda de moleques. De longe, percebo minha algoz saindo do quarto. Nem me direciona os olhos. Melhor assim, penso. E continuo olhando. Deve estar encabulada. Seu plano falhou. Já o meu…





12 mil toques.

1 04 2009

Isso mesmo. A seguir, 12 mil caracteres. É fruto da aula de Jornalismo Literário. Um pequeno exercicío. Para você não se assustar de cara com tantas letras, sem fotos nem videos, lhe dou uma breve explicação a fim de aguçar sua curiosidade. Fiz o texto abaixo durante as horas vagas do trampo. Demorei três dias em momentos apressados. E, nele, descrevo como caminha minha rotina durante estes últimos dias. Vividos por mim pela manhã. Certo, isso não é nada curioso. Mas insisto: avalie meu texto. Só assim para que ele evolua.

 

O emprego

 

BRUNO ABBUD

 

Ter um emprego ajuda a ocupar a mente do ser humano e treinar suas conexões neurocerebrais para que se tornem cada vez mais rápidas. Nas manhãs de todos os dias, desde o mês de dezembro de 2008, acordo para me dirigir a uma cadeira de estofado azul. Deixados de fora dessa rotina, os finais de semana não se constituem de seis horas diárias sentado em frente ao computador. Mas isso é só um detalhe, porque o mês é feito mesmo de dias úteis. E, numa manhã útil, lá pelas sete e meia, eu acordo para ser ainda tão útil quanto somos nesses dias. Mas este despertar não ocorre sempre tão facilmente. Depois da primeira onomatopéia eletrônica oriunda do criado-mudo, trato logo de postergar o momento, para que depois de dez curtíssimos minutos eu volte a ser chacoalhado por aquela aguda manifestação sonora. Dizem, os sábios especialistas da medicina deste século, que acordar depois de mais de oito horas de sono por culpa de um ruído indesejável pode prejudicar a saúde. O ideal seria despertar-se pela força da luz. Do dia. Ter o sol envolvendo as pálpebras, num cenário quase que idêntico ao do comercial de margarina, até que elas percebam seu dever e se abram. Mas comigo, isso não acontece. Após três postergadas de tempo, levanto num pulo. Visto calça, camiseta e coloco um par de meias no bolso. Os sapatos estão na sala. Um hall, um corredor e um pedaço de chão de mármore branco distantes de mim.

 

Tiro o celular do criado e coloco no bolso para não ter mais que voltar ao quarto. Passo reto pelo banheiro – mesmo desejando desesperadamente descarregar os líquidos da bexiga – e entro pela porta da cozinha. Ali se concentra a maioria das tarefas destes primeiros minutos matutinos. Abro a geladeira, pego o leite. Abro o armário, pego a caneca. Leite no caneco, tudo para o microondas. Enquanto o drink esquenta, trato de correr para o lavabo, que é mais perto que o banheiro deixado para trás. Uma distância de centímetros, mas que no conjunto das ações interfere no resultado final da economia de tempo. Afinal, tenho que estar às oito horas em frente à máquina em que se bate o cartão. E, a essa altura, faltam cerca de quinze minutos para que isso aconteça.

Já aliviei meu peso fisiológico diário, lavei o rosto e volto para pegar o leite. Mas, antes de abrir a porta do forno de microondas, coloco duas fatias de pão na torradeira e, antes que a bebida esfrie e que a comida esquente, fecho a porta que dá acesso ao interior da casa e abro a que sai para o quintal. Assim as cachorras podem entrar na cozinha, mas não na sala. Se fossem para dentro de casa, o barulho das unhas caninas no assoalho de madeira faria com que minha mãe, ainda dormindo, despertasse por culpa de um barulho que, pela avaliação dela, com certeza superaria os níveis de irritação e de malefícios à saúde fornecidos pelo despertador de um celular. Prefiro evitar esta situação.
Enquanto, numa fração de minuto, o leite esfria, o pão torra e as cadelas farejam cada canto da cozinha em busca de um alimento perdido, eu corro até os fundos da casa, onde fica o salão. Lá é o território da bicharada e, mesmo sabendo que talvez eles já tivessem seus pratinhos repletos de ração, fico rotineiramente impressionado com o desespero dos focinhos em farejar tudo e em implorar por um pedaço do meu café da manhã que me obrigo a ir até lá checar os recipientes de comida. Ás vezes estão vazios. Isso me provoca um lapso de pensamentos. Lembro do IBAMA, da minha avó, que adora animais e jamais deixaria isso acontecer, e da suposta crueldade de quem esteve no salão e esqueceu-se de encher as vasilhas de ração. Todo esse drama se desfaz logo que me lembro das fatias de pão ficando pretas em um alto teor de crocância. Encho os potes, acaricio a gata e abro as janelas. Agora posso voltar tranqüilo para a minha refeição matinal.
A luz vermelha de alerta da torradeira prateada já está acesa há alguns segundos, numa cena que insiste pela retirada das fatias antes que virem farelo. Desengato o fio da tomada e jogo os pães num prato recém-agarrado por mim na prateleira. Misturo achocolatado no leite e pratico meu desjejum cercado pelas cachorras. E pelo cão. São três fêmeas e um macho.

Depois de comer deixo os bichos na cozinha, coloco o prato e a caneca na pia e fecho a porta. Agora, já estou na sala, sentado, vestindo cada pé com as meias que estavam no bolso da calça. Coloco os sapatos, a jaqueta. Pego mochila, crachá, chave e, de repente, lembro de escovar os dentes. Deixo para fazer isso quando chegar ao trabalho, onde há armarinhos alheios guardiões de pastas de dente dos demais funcionários. Afinal, preciso ganhar tempo. E só carrego a escova em minha mochila. Roubo a pasta quase sempre. Ninguém percebe. Deixo ela na mesma posição em que a encontrei.
Com a lembrança de preservar minha arcada dentária, desço as escadas para ir embora. Faltam menos de dez minutos para as oito horas.

Algo que exige um pequeno teor de esforço físico é tirar a moto da garagem. Manobras são necessárias para desviar os pneus dos excrementos deixados aleatoriamente espalhados pelo chão branco da garagem. Coisa dos cães. Mesmo com um pequeno jardim disponível e aconchegante no canto do terreno, eles insistem em fazer suas necessidades na passagem de entrada do portão. Um ato que me irrita periodicamente, dependendo de circunstâncias peculiares: o sonho que tive durante a noite, a presença ou ausência dos raios de sol, o meu atraso. Detalhes relevantes para a formação do humor do dia. Mas, nesta manhã, sem qualquer raiva excedente, alcanço o portão.


Por morar num bairro onde, ultimamente, o índice de assaltos a casas ultrapassa quase que semanalmente o número de flagrantes deste ato registrados pela polícia, passo as vistas numa curva de 180 graus pela rua antes de abrir a trava da fechadura. As histórias que correm pelas mesas de almoço das famílias do Morumbi apontam que os ladrões costumam abordar a vítima pela manhã. Saltam pelo muro da casa-alvo durante a madrugada e se escondem. Aguardam até que o primeiro dorminhoco acorde e abra alguma das portas da residência. Média baseada em cálculos feitos pela PM aponta que isso ocorre geralmente por volta das seis horas da manhã. É a hora em que os criminosos entram em ação, a partir do sonoro estalar da maçaneta. A suspeita é que sejam todos moradores da favela de Paraisópolis. Em retaliação às intervenções da Polícia Militar e Civil ao tráfico de drogas oriundo dali, os bandidos programam espalhafatosos assaltos na região vizinha, onde a presença de moradias de classe média alta é predominante. A intenção é dar trabalho aos policiais. Em um caso específico, os ladrões entraram na casa e renderam uma família por toda a madrugada. Defecaram nos sofás e camas e limparam-se com as toalhas brancas de tecido macio. Amarraram as vítimas e reviraram os cômodos numa impetuosa bagunça. Por isso, não hesito em ficar atento quando acordo. Sou o primeiro. Aquele que deita os dedos sobre a maçaneta.


Com a moto já ligada, esquentando o motor, libero o portão da trava de ferro. Estaciono-a em frente à calçada de pedras ásperas e desço para fechar a entrada para a garagem. Nesse meio tempo, imagino minha reação caso alguém, num ato ligeiro, montasse em minha moto e fugisse enquanto eu estivesse acoplando as grades de metal que delimitam o terreno de casa. Sei que não é uma atitude muito inteligente largar a moto ligada no meio da rua. Mas o perigo diminui quando levo apenas alguns segundos para voltar às rédeas da magrela motorizada.


Menos de um ano atrás, eu estava pilotando uma moto pela primeira vez na metrópole São Paulo. E o percurso não era dos mais fáceis: da Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Melo, na zona leste, à minha casa, no Morumbi. Antes de você questionar, eu esclareço: só encontrei a moto almejada numa concessionária longínqua, daquele lado da cidade. Hoje, quando subo nela para ir para o trabalho ou para qualquer outro lugar, ainda produzo uma oração inconsciente, lembrando das cenas captadas pelos helicópteros do Datena nos finais de tarde, quando a quantidade de motoqueiros caídos no asfalto transforma-se em notícia que toma minutos demasiados na televisão. Após a curta oração que me livra desse pensamento, o motor aquecido e o capacete engatilhado, sigo em frente.


Tento não relar os guidões nos retrovisores dos carros a minha frente. Para isso, amplifico minha visão até que ela seja capaz de identificar qualquer movimento fora de série. O trânsito é análogo às movimentações internas de uma indústria. Mesmos movimentos, mesma linha a ser seguida. De moto, você só precisa se encaixar. E enquanto faço isso, instigo minha imaginação a produzir uma alternativa rápida e eficaz caso surja do além de minhas costas um assaltante de bancos em fuga alucinada, pronto para passar por cima de qualquer motoca 125 cilindradas. Lembro do último filme de James Bond. Em outras vezes, treino para levantar as pernas rapidamente dos pedais caso um carro venha beijar meus joelhos com seu pára-choque inconveniente. Estatísticas preventivas provenientes do lado esquerdo do meu cérebro mostram que planejar situações pode ser um ato útil no futuro. Meus planos são geralmente formulados em suas respectivas circunstâncias imediatas de acontecimento. Nunca antes delas.

 

Quando paro a moto antes da cancela do estacionamento, meus olhos estão vermelhos e levemente inchados. Culpa do vento forte e da poluição. A todo cisco que bate no meu rosto, lembro de arranjar logo uns óculos. Mas sempre postergo a compra. Para isso há explicação: quero adquirir um daqueles baratos, do camelô. Mas como nunca ando com dinheiro e os vendedores ambulantes ainda não aceitam cartões de débito, a possibilidade se anula. Deixo para depois.

 

Uma lágrima escorre do meu olho direito enquanto me estico para encostar o crachá – pendurado no pescoço – na caixinha de ferro responsável por emitir o sinal que levanta a cancela. Uma norma básica de segurança. Meus olhos lacrimejam por conta daquele vento. Logo os enxugo com os punhos. Volta e meia, antes da barreira do estacionamento da empresa se abrir, me deparo com a mensagem “Erro de leitura”. O segurança pede para que eu posicione a moto mais para a esquerda, com o objetivo de fazer com que o sensor de movimento identifique que eu estou lá, parado, esperando, louco para entrar e bater o cartão. Parece que a máquina me entende e o bloqueio se abre. Desvio da primeira lombada pelo canto reto da sarjeta e acelero.

 

A tempo, registro que estive em frente ao equipamento em que se assina o ponto. Depois de ter estacionado a minha humilde “duas rodas” ao lado de outras tantas mais potentes – Yamahas 1100 pretas brilhantes, Suzukis 600 amarradas a capacetes Shark de R$ 3.500 e Harleys como as do clássico filme “Easy Rider” -, provavelmente de posse dos altos diretores da empresa, caminho até a catraca. Trabalho em um departamento localizado do lado de fora do complexo empresarial onde fica o gabinete dos diretores, do presidente, a assessoria de imprensa e a ala dos profissionais em tecnologia da informação. Estou empregado na ouvidoria de uma companhia responsável por tratar do saneamento básico da maior cidade da América Latina. Filtrar a água que chega às torneiras dos paulistanos e coletar o esgoto oriundo dos vasos sanitários, pias e ralos destes cidadãos e de muitos outros do estado é “nossa” função – as aspas referem-se a um suposto patriotismo institucional que, só para constar, eu não tenho. Minha tarefa aqui é simples: redigir cartas que oferecem um “sincero pedido de desculpas” e lamentam “os transtornos vivenciados” por munícipes atendidos problematicamente pela empresa. Informo sobre as providências das unidades espalhadas pela cidade acerca das soluções dos entraves. Vazamentos de água, esgotos a céu aberto, contas altíssimas sem porquê, imóveis com dívidas de inquilinos antigos, etc. De certa maneira, sou pago para mentir.

 

Muitas vezes, encaminho cartas para a Câmara Municipal. Viaduto Jacareí, Centro. O refúgio dos vereadores de semblante sério e carismático. Representantes do povo. Aqueles que “na oportunidade [de expor uma mensagem à empresa]” renovam [às devidas “Vossas Senhorias”] os “protestos de suas distintas considerações”. Uma educação que ultrapassa os hábitos de príncipes ingleses. Tão mentirosa quanto as minhas cartas. Mas tudo bem. As pessoas andam convictas de que o mundo é assim mesmo.


Quando adentro o local de trabalho, pela manhã, posso sentir o cheiro do ambiente. Algo que caracteriza, de determinado modo, as épocas da minha vida. Pela minha experiência profissional de estagiário, garçom, DJ e de Figurante em comercial do Mc’ Donald’s, consigo concluir que cada local de trabalho possui um odor próprio. Mas sem origem comprovada. Como se todos os cômodos da cidade e do mundo estivessem inerentes à energias invisíveis. Um ser humano não tão sensível pode perceber isso. Logo que entro, percebo. Julgue-me esotérico e admirador do oculto, mas não desacredite minhas palavras. Algum sentido elas têm. Tão oculto quanto os reais problemas dos clientes da empresa, que emitem cartas via PROCON, num ápice da indignação humana. “Minha vizinha é magra de doente e tem que lavar a casa inteira, eu sou aposentado e não tomo banho há dias e a outra aqui da casa do meu lado tá que não consegue andar por que é obesa”, afirma um cidadão revoltado com a falta de água que atinge seu bairro. Para este caso, a resposta é simples. Na carta: “Informamos que foi agendada visita de equipe técnica ao local reclamado”. “Salientamos que este não é o padrão de relacionamento pretendido pela companhia”. Mas, na realidade das circunstâncias que provocam a revolta do aposentado, a água não chega até eles porque a rua fica no alto de um morro e nosso setor de investimentos ainda não destinou um único centavo para a construção de bombas que empurrem a água montanha acima. Isso não se fala. A resposta deve ser sucinta e garantir a satisfação do cliente. O desabastecimento ocorre por alguns períodos, apenas. Depois a água volta e as rotinas se normalizam. Como um arco-íris que aparece após a tempestade.





Sexta-feira de fevereiro de 2009.

4 03 2009

O texto a seguir conta minha trajetória em busca de uma pauta. A matéria era para ser entregue a Augusto Nunes – um dos mais renomados jornalistas do país.

27 de fevereiro de 2009.
 
 
Estou apoiado no banco de um boteco, no coração da Liberdade – bairro da região central de São Paulo. Ás vezes, um dos tiros acerta algum de “todos os lados” em que miraram. Nesse disparo, a questão ganhou resposta. Atingiu Augusto Nunes que, imagino, imerso no barulho diário que afeta os edifícios reluzentes de São Paulo, conseguiu arranjar tempo para dizer a um estudante de jornalismo o que ele – se estivesse nesta condição – faria para se encaixar em alguma redação do país: “Ligaria para mim e combinaria uma pauta”. Para uma avaliação sincera, que fique claro. E assim aconteceu. Duas laudas, editoria “Cidades”. O estudante pensou em deixar de ir à praia durante o feriado de Carnaval, para apurar sua reportagem. Mas não o fez.
 
Na quinta-feira pós-período de fuga e alienação do brasileiro, o aspirante a repórter esteve na Baixada do Glicério – uma das áreas mais degradadas da cidade. Ali, buscava sua pauta. Tráfico de pedras de crack em plena luz do dia, enchentes, lixo, moradores debruçados nas janelas e envoltos numa melancolia urbana que vê apenas quem repara. E nada. Não fez a matéria.
 
Esteve naquele lugar depois de seguir o conselho de seu professor, Claudio Julio Tognolli. Conversou com a freira chefe de uma ONG que fica no bairro – uma das principais ideias para a pauta. A fonte evitava a entrevista como podia. Não era por menos. As chuvas da semana haviam invadido as dependências da ONG, arrastando móveis e ocupando os pensamentos da freira com preocupações que adiavam ainda mais os planos para a reportagem. “Entrevista só depois das águas de março”, ela bem disse.
 
A organização da freira preocupada busca desvendar talentos artísticos inerentes a seres humanos que vivem nas ruas.  Responsáveis pela produção de objetos que, criados a partir do lixo descartado ao relento e recolhido por catadores sindicalizados, já chegaram a ser exportados à Europa. Diretamente da baixada do Glicério, no final da Rua dos Estudantes com a Egas Moniz. Perímetro em que não há pavimentação. Isso porque, com medo de danificar tubos subterrâneos de gás que atravessam a rua – onde crianças teimam em brincar acendendo pequenas bombas de pólvora -, a prefeitura postergou as obras que eram realizadas nas galerias de águas pluviais do local, deixando-o sem qualquer resquício de asfalto. O assunto parecia atraente. Arte de nível internacional, originada do lixo e concebida na baixada do Glicério. Dali para o mundo. Do lixo brasileiro para os ambientes europeus. Mas o estudante não encontrou graça nisso.
 
Deixando de lado a narrativa em terceira pessoa, concluo: o estudante sou eu. E ali não havia nada que fosse capaz de impressionar. Desisti. Não pelo simples ato do verbo, mas lembrando de um significativo conselho que registrei no passado: “Se o repórter não está apaixonado por sua pauta, ninguém haverá de ler sua matéria”. Comecei a questionar meu talento para o ofício, pois, se em uma pura fábrica de pautas que é o Glicério não pude encontrar nada, onde encontraria?

 

 

 

Já é sexta-feira e, num ápice do meu pensamento confuso em busca da boa pauta, fui até o Teatro Municipal para investigar sua área subterrânea que abrange quase todo o território do Vale do Anhangabaú. “Você não pode entrar. Deve agendar uma visita”, foi a resposta do guarda que vestia farda azul marinho. O assunto que buscava – uma quase lenda urbana – teria que esperar. Tudo bem. Depois de ter saído do Morumbi sobre uma moto 125 cilindradas, cruzado propositadamente as principais avenidas da cidade (afinal, a escolha da editoria era mesmo para ser um reflexo da própria São Paulo) até chegar à Praça Ramos de Azevedo, vim estacionar num banco de boteco, sentado. No coração da Liberdade. E adivinha? Encontrei uma boa matéria. Escrevo-a em meu bloco de folhas brancas ainda não recicladas. A pauta? O inusitado ambiente compartilhado pelos mais curiosos cidadãos-personagem da metrópole, contemplada a partir do ângulo oriundo do balcão de um bar do centro. Numa sexta-feira de fevereiro.
 
Outro conselho que meu cérebro em sua capacidade e conveniência optou por registrar: “Para conseguir boas pautas, freqüente lugares estranhos à sua realidade”. Por isso, escolhi este estabelecimento longe de meu caminho. Aqui, já presenciei cenas minimamente interessantes. Uma moça jovem, bem vestida e com ares da classe média passou por mim, quase que despercebida, em busca de uma “seda” – folha de papel ideal para enrolar cigarros de maconha. Do jeito que entrou, saiu. Outro homem, com seus quase 40 anos aparentes, chegou de repente e, como quem pede por uma pílula contra impotência sexual, proferiu a esquisita frase (e ainda mais imprópria para uma sexta-feira calorenta): “Você tem Skol quente?”. Ele era japonês e alguns nipônicos são mesmo esquisitos.
 
Continuo sentado e pensando em minha pauta. Ainda tenho o fim de semana. Mas estou muito – bastante mesmo – confuso. O excesso de informação gera a desinformação. É como me sinto, após ler todos os cadernos da editoria referida durante a semana. Pedi um cigarro e um copo de cerveja e, hoje, não vou para a noite paulistana. A não ser que, como um bom jornalista gonzo, seja para fazer uma reportagem. Em meio a meu deslocamento – termo sacado por mim ontem, durante a aula que dispunha sobre psicanálise – poderia produzir uma boa matéria. Ou, talvez, boa ideia seria absorver as pautas que me rondam diariamente. Aguçar a percepção. Pode até ser. O melhor que tenho a fazer agora – creio – é pagar pela cerveja e subir na moto em disparada. Nesta cidade, há muito para se falar. 
  
 

 





Carnaval, Carnaval

2 03 2009

Uma pequena amostra do desfile de Carnaval da bateria de Unidos de Paúba. Diretamente da praia de Paúba, em São Sebastião, São Paulo. Pega fogo.

 





“Morte de frango assusta vegetarianos no interior de São Paulo”, e em qualquer lugar.

16 02 2009

Ou você torce o pescoço até quebrá-lo, ou desliza sobre ele uma faca pré-afiada até que escorra sangue o suficiente para deixar as asas imóveis. Para quem come, mas não mata, eis a lição.

Frangos são aves adoráveis. Comem sementes e insetos e vivem geralmente inerentes à uma paisagem bucólica. No campo, na terra batida. Alguns dizem que sua massa coporal e formato peculiar foram feitos especificamente para alimentar o homem. Pensando bem, faz sentido. Pense bem. Uma bolinha de carne branca. Faz sentido.

 

No entanto, entre outros tantos, existe o movimento vegetariano que condena a presença de células mortas dentro do organismo vivo do ser humano. Se são células vegetais mortas, não há impedimento. Mas, sobre as animais, existem até argumentos que aterrisam sobre o campo do cenário econômico mundial. Ouvi histórias que apontavam a criação de gado bovino como um dos maiores fatores contribuintes para o aquecimento global. Dentro das explicações que dão base à essa história, estavam os gases expelidos pelo boi enquanto rumina o mato. Não sei, não apurei. Mas isso me parece pura estória. Mas, mesmo assim, fui adiante. Cheguei à conclusão de que o fato de o ser humano consumir carne bovina contribuir para o aquecimento do globo terrestre só pode ser fundamentado na seguinte ocasião: os bois ocupam o espaço da floresta. Provocam o desmatamento. Simples e bem óbvio. Ta aí o tal do campo econômico. Se dependesse dos vegetarianos ortodoxos, toda a área desmatada pelos fazendeiros latifundiários do Brasil seriam reservadas para as florestas tropicais. E a soja seria plantada em menor quantidade. Apenas para os humanos, e não para os animais ruminantes dos pastos estadounidenses.

Deixo esse pensamento em aberto. Voltando aos frangos. As pessoas consomem, mas não matam. Em prol do vegetarianismo, deixo o desafio lançado. Se os consumidores fossem obrigados – por decreto regulamentado – a matar para comer carne, é certo que o consumo iria cair quase que por completo. Isto é um protesto aos consumidores da carne de qualquer espécie animal. Tente assistir ao processo que coloca em seu prato aquela fatia de carne pronta para ser engolida. Depois disso, coma à vontade.

 

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E, se você come frango, a receita é a seguinte: siga ao pé da letra uma das opções oferecidas pela primeira frase deste post. Depois, quando as asas estiverem imóveis, jogue sobre o frango água fervente. Isso abrirá os poros e deixará as penas mais fáceis de serem arrancadas. Arranque-as.

 

 

O quarto passo consiste em salpicar a pele do frango na chama de um fogão, para acabar com as irregularidades deixadas pelas penas. Depois disso, limpe o frango. Preserve a moela e o coração, eles são comestíveis. Alguns utilizam o sangue para fazer o molho, com bastante tempero. Logo que decidir sua receita, termine com a limpeza dos órgãos e lave o frango com detergente ou sabão. Enxágue bem. Prepare e sirva. Ou aprenda a viver de folhas, grãos e derivados vegetais. Se não gostou da receita, evite ingerir proteína animal. Pois somente desta maneira elas são adquiridas.

 

 

Esse lavando o frango é meu avô, interiorano nato e matador experiente de frangos pelo Brasil.





Caminhão entala em túnel e derruba viga sobre carro em movimento

13 02 2009

 

22h e poucos minutos – Eu estava voltando da faculdade, com a chuva que insistia em embassar a viseira do meu capacete, quando avistei o que não poderia ser: o túnel Ayrton Senna estava fechado. Imaginei que estaríam realizando algum tipo de manutenção, mas quando contornei para alcançar outro caminho percebi um movimento além do normal. Fiz a volta.

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Parei a moto em uma ruazinha escura e corri até a boca do estrago. Um caminhão que carregava tapetes trazidos de Guarulhos e com destino à Vila Olímpia não percebeu a altura limite do túnel e entalou na viga de ferro que beira a borda do tubo de concreto. Ao dar ré, para tentar escapar, o motorista do caminhão derrubou a estrutura que alertava sobre o limite de altura dos grandões, atingindo uma Zafira preta. No carro, havia uma mulher – a motorista -, uma menina e um garoto de no máximo 7 anos.

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A viga de ferro atingiu a traseira do automóvel. Ninguém se feriu. Os maiores mal tratados nessa história – além de seus personagens principais – foram os motoristas paulistanos que voltavam para casa pela Avenida 23 de maio, que com o incidente ficou ainda mais congestionada.

Abaixo, entrevista com um dos tripulantes do caminhão, que relutou para falar e , no final, no ponto em que a gravação é interrompida, desiste de vez quando avista o proprietário da transportadora, seu patrão.