Sexta-feira de fevereiro de 2009.

4 03 2009

O texto a seguir conta minha trajetória em busca de uma pauta. A matéria era para ser entregue a Augusto Nunes – um dos mais renomados jornalistas do país.

27 de fevereiro de 2009.
 
 
Estou apoiado no banco de um boteco, no coração da Liberdade – bairro da região central de São Paulo. Ás vezes, um dos tiros acerta algum de “todos os lados” em que miraram. Nesse disparo, a questão ganhou resposta. Atingiu Augusto Nunes que, imagino, imerso no barulho diário que afeta os edifícios reluzentes de São Paulo, conseguiu arranjar tempo para dizer a um estudante de jornalismo o que ele – se estivesse nesta condição – faria para se encaixar em alguma redação do país: “Ligaria para mim e combinaria uma pauta”. Para uma avaliação sincera, que fique claro. E assim aconteceu. Duas laudas, editoria “Cidades”. O estudante pensou em deixar de ir à praia durante o feriado de Carnaval, para apurar sua reportagem. Mas não o fez.
 
Na quinta-feira pós-período de fuga e alienação do brasileiro, o aspirante a repórter esteve na Baixada do Glicério – uma das áreas mais degradadas da cidade. Ali, buscava sua pauta. Tráfico de pedras de crack em plena luz do dia, enchentes, lixo, moradores debruçados nas janelas e envoltos numa melancolia urbana que vê apenas quem repara. E nada. Não fez a matéria.
 
Esteve naquele lugar depois de seguir o conselho de seu professor, Claudio Julio Tognolli. Conversou com a freira chefe de uma ONG que fica no bairro – uma das principais ideias para a pauta. A fonte evitava a entrevista como podia. Não era por menos. As chuvas da semana haviam invadido as dependências da ONG, arrastando móveis e ocupando os pensamentos da freira com preocupações que adiavam ainda mais os planos para a reportagem. “Entrevista só depois das águas de março”, ela bem disse.
 
A organização da freira preocupada busca desvendar talentos artísticos inerentes a seres humanos que vivem nas ruas.  Responsáveis pela produção de objetos que, criados a partir do lixo descartado ao relento e recolhido por catadores sindicalizados, já chegaram a ser exportados à Europa. Diretamente da baixada do Glicério, no final da Rua dos Estudantes com a Egas Moniz. Perímetro em que não há pavimentação. Isso porque, com medo de danificar tubos subterrâneos de gás que atravessam a rua – onde crianças teimam em brincar acendendo pequenas bombas de pólvora -, a prefeitura postergou as obras que eram realizadas nas galerias de águas pluviais do local, deixando-o sem qualquer resquício de asfalto. O assunto parecia atraente. Arte de nível internacional, originada do lixo e concebida na baixada do Glicério. Dali para o mundo. Do lixo brasileiro para os ambientes europeus. Mas o estudante não encontrou graça nisso.
 
Deixando de lado a narrativa em terceira pessoa, concluo: o estudante sou eu. E ali não havia nada que fosse capaz de impressionar. Desisti. Não pelo simples ato do verbo, mas lembrando de um significativo conselho que registrei no passado: “Se o repórter não está apaixonado por sua pauta, ninguém haverá de ler sua matéria”. Comecei a questionar meu talento para o ofício, pois, se em uma pura fábrica de pautas que é o Glicério não pude encontrar nada, onde encontraria?

 

 

 

Já é sexta-feira e, num ápice do meu pensamento confuso em busca da boa pauta, fui até o Teatro Municipal para investigar sua área subterrânea que abrange quase todo o território do Vale do Anhangabaú. “Você não pode entrar. Deve agendar uma visita”, foi a resposta do guarda que vestia farda azul marinho. O assunto que buscava – uma quase lenda urbana – teria que esperar. Tudo bem. Depois de ter saído do Morumbi sobre uma moto 125 cilindradas, cruzado propositadamente as principais avenidas da cidade (afinal, a escolha da editoria era mesmo para ser um reflexo da própria São Paulo) até chegar à Praça Ramos de Azevedo, vim estacionar num banco de boteco, sentado. No coração da Liberdade. E adivinha? Encontrei uma boa matéria. Escrevo-a em meu bloco de folhas brancas ainda não recicladas. A pauta? O inusitado ambiente compartilhado pelos mais curiosos cidadãos-personagem da metrópole, contemplada a partir do ângulo oriundo do balcão de um bar do centro. Numa sexta-feira de fevereiro.
 
Outro conselho que meu cérebro em sua capacidade e conveniência optou por registrar: “Para conseguir boas pautas, freqüente lugares estranhos à sua realidade”. Por isso, escolhi este estabelecimento longe de meu caminho. Aqui, já presenciei cenas minimamente interessantes. Uma moça jovem, bem vestida e com ares da classe média passou por mim, quase que despercebida, em busca de uma “seda” – folha de papel ideal para enrolar cigarros de maconha. Do jeito que entrou, saiu. Outro homem, com seus quase 40 anos aparentes, chegou de repente e, como quem pede por uma pílula contra impotência sexual, proferiu a esquisita frase (e ainda mais imprópria para uma sexta-feira calorenta): “Você tem Skol quente?”. Ele era japonês e alguns nipônicos são mesmo esquisitos.
 
Continuo sentado e pensando em minha pauta. Ainda tenho o fim de semana. Mas estou muito – bastante mesmo – confuso. O excesso de informação gera a desinformação. É como me sinto, após ler todos os cadernos da editoria referida durante a semana. Pedi um cigarro e um copo de cerveja e, hoje, não vou para a noite paulistana. A não ser que, como um bom jornalista gonzo, seja para fazer uma reportagem. Em meio a meu deslocamento – termo sacado por mim ontem, durante a aula que dispunha sobre psicanálise – poderia produzir uma boa matéria. Ou, talvez, boa ideia seria absorver as pautas que me rondam diariamente. Aguçar a percepção. Pode até ser. O melhor que tenho a fazer agora – creio – é pagar pela cerveja e subir na moto em disparada. Nesta cidade, há muito para se falar. 
  
 

 





Carnaval, Carnaval

2 03 2009

Uma pequena amostra do desfile de Carnaval da bateria de Unidos de Paúba. Diretamente da praia de Paúba, em São Sebastião, São Paulo. Pega fogo.