Isso mesmo. A seguir, 12 mil caracteres. É fruto da aula de Jornalismo Literário. Um pequeno exercicío. Para você não se assustar de cara com tantas letras, sem fotos nem videos, lhe dou uma breve explicação a fim de aguçar sua curiosidade. Fiz o texto abaixo durante as horas vagas do trampo. Demorei três dias em momentos apressados. E, nele, descrevo como caminha minha rotina durante estes últimos dias. Vividos por mim pela manhã. Certo, isso não é nada curioso. Mas insisto: avalie meu texto. Só assim para que ele evolua.
O emprego
BRUNO ABBUD
Ter um emprego ajuda a ocupar a mente do ser humano e treinar suas conexões neurocerebrais para que se tornem cada vez mais rápidas. Nas manhãs de todos os dias, desde o mês de dezembro de 2008, acordo para me dirigir a uma cadeira de estofado azul. Deixados de fora dessa rotina, os finais de semana não se constituem de seis horas diárias sentado em frente ao computador. Mas isso é só um detalhe, porque o mês é feito mesmo de dias úteis. E, numa manhã útil, lá pelas sete e meia, eu acordo para ser ainda tão útil quanto somos nesses dias. Mas este despertar não ocorre sempre tão facilmente. Depois da primeira onomatopéia eletrônica oriunda do criado-mudo, trato logo de postergar o momento, para que depois de dez curtíssimos minutos eu volte a ser chacoalhado por aquela aguda manifestação sonora. Dizem, os sábios especialistas da medicina deste século, que acordar depois de mais de oito horas de sono por culpa de um ruído indesejável pode prejudicar a saúde. O ideal seria despertar-se pela força da luz. Do dia. Ter o sol envolvendo as pálpebras, num cenário quase que idêntico ao do comercial de margarina, até que elas percebam seu dever e se abram. Mas comigo, isso não acontece. Após três postergadas de tempo, levanto num pulo. Visto calça, camiseta e coloco um par de meias no bolso. Os sapatos estão na sala. Um hall, um corredor e um pedaço de chão de mármore branco distantes de mim.
Tiro o celular do criado e coloco no bolso para não ter mais que voltar ao quarto. Passo reto pelo banheiro – mesmo desejando desesperadamente descarregar os líquidos da bexiga – e entro pela porta da cozinha. Ali se concentra a maioria das tarefas destes primeiros minutos matutinos. Abro a geladeira, pego o leite. Abro o armário, pego a caneca. Leite no caneco, tudo para o microondas. Enquanto o drink esquenta, trato de correr para o lavabo, que é mais perto que o banheiro deixado para trás. Uma distância de centímetros, mas que no conjunto das ações interfere no resultado final da economia de tempo. Afinal, tenho que estar às oito horas em frente à máquina em que se bate o cartão. E, a essa altura, faltam cerca de quinze minutos para que isso aconteça.
Já aliviei meu peso fisiológico diário, lavei o rosto e volto para pegar o leite. Mas, antes de abrir a porta do forno de microondas, coloco duas fatias de pão na torradeira e, antes que a bebida esfrie e que a comida esquente, fecho a porta que dá acesso ao interior da casa e abro a que sai para o quintal. Assim as cachorras podem entrar na cozinha, mas não na sala. Se fossem para dentro de casa, o barulho das unhas caninas no assoalho de madeira faria com que minha mãe, ainda dormindo, despertasse por culpa de um barulho que, pela avaliação dela, com certeza superaria os níveis de irritação e de malefícios à saúde fornecidos pelo despertador de um celular. Prefiro evitar esta situação.
Enquanto, numa fração de minuto, o leite esfria, o pão torra e as cadelas farejam cada canto da cozinha em busca de um alimento perdido, eu corro até os fundos da casa, onde fica o salão. Lá é o território da bicharada e, mesmo sabendo que talvez eles já tivessem seus pratinhos repletos de ração, fico rotineiramente impressionado com o desespero dos focinhos em farejar tudo e em implorar por um pedaço do meu café da manhã que me obrigo a ir até lá checar os recipientes de comida. Ás vezes estão vazios. Isso me provoca um lapso de pensamentos. Lembro do IBAMA, da minha avó, que adora animais e jamais deixaria isso acontecer, e da suposta crueldade de quem esteve no salão e esqueceu-se de encher as vasilhas de ração. Todo esse drama se desfaz logo que me lembro das fatias de pão ficando pretas em um alto teor de crocância. Encho os potes, acaricio a gata e abro as janelas. Agora posso voltar tranqüilo para a minha refeição matinal.
A luz vermelha de alerta da torradeira prateada já está acesa há alguns segundos, numa cena que insiste pela retirada das fatias antes que virem farelo. Desengato o fio da tomada e jogo os pães num prato recém-agarrado por mim na prateleira. Misturo achocolatado no leite e pratico meu desjejum cercado pelas cachorras. E pelo cão. São três fêmeas e um macho.
Depois de comer deixo os bichos na cozinha, coloco o prato e a caneca na pia e fecho a porta. Agora, já estou na sala, sentado, vestindo cada pé com as meias que estavam no bolso da calça. Coloco os sapatos, a jaqueta. Pego mochila, crachá, chave e, de repente, lembro de escovar os dentes. Deixo para fazer isso quando chegar ao trabalho, onde há armarinhos alheios guardiões de pastas de dente dos demais funcionários. Afinal, preciso ganhar tempo. E só carrego a escova em minha mochila. Roubo a pasta quase sempre. Ninguém percebe. Deixo ela na mesma posição em que a encontrei.
Com a lembrança de preservar minha arcada dentária, desço as escadas para ir embora. Faltam menos de dez minutos para as oito horas.
Algo que exige um pequeno teor de esforço físico é tirar a moto da garagem. Manobras são necessárias para desviar os pneus dos excrementos deixados aleatoriamente espalhados pelo chão branco da garagem. Coisa dos cães. Mesmo com um pequeno jardim disponível e aconchegante no canto do terreno, eles insistem em fazer suas necessidades na passagem de entrada do portão. Um ato que me irrita periodicamente, dependendo de circunstâncias peculiares: o sonho que tive durante a noite, a presença ou ausência dos raios de sol, o meu atraso. Detalhes relevantes para a formação do humor do dia. Mas, nesta manhã, sem qualquer raiva excedente, alcanço o portão.
Por morar num bairro onde, ultimamente, o índice de assaltos a casas ultrapassa quase que semanalmente o número de flagrantes deste ato registrados pela polícia, passo as vistas numa curva de 180 graus pela rua antes de abrir a trava da fechadura. As histórias que correm pelas mesas de almoço das famílias do Morumbi apontam que os ladrões costumam abordar a vítima pela manhã. Saltam pelo muro da casa-alvo durante a madrugada e se escondem. Aguardam até que o primeiro dorminhoco acorde e abra alguma das portas da residência. Média baseada em cálculos feitos pela PM aponta que isso ocorre geralmente por volta das seis horas da manhã. É a hora em que os criminosos entram em ação, a partir do sonoro estalar da maçaneta. A suspeita é que sejam todos moradores da favela de Paraisópolis. Em retaliação às intervenções da Polícia Militar e Civil ao tráfico de drogas oriundo dali, os bandidos programam espalhafatosos assaltos na região vizinha, onde a presença de moradias de classe média alta é predominante. A intenção é dar trabalho aos policiais. Em um caso específico, os ladrões entraram na casa e renderam uma família por toda a madrugada. Defecaram nos sofás e camas e limparam-se com as toalhas brancas de tecido macio. Amarraram as vítimas e reviraram os cômodos numa impetuosa bagunça. Por isso, não hesito em ficar atento quando acordo. Sou o primeiro. Aquele que deita os dedos sobre a maçaneta.
Com a moto já ligada, esquentando o motor, libero o portão da trava de ferro. Estaciono-a em frente à calçada de pedras ásperas e desço para fechar a entrada para a garagem. Nesse meio tempo, imagino minha reação caso alguém, num ato ligeiro, montasse em minha moto e fugisse enquanto eu estivesse acoplando as grades de metal que delimitam o terreno de casa. Sei que não é uma atitude muito inteligente largar a moto ligada no meio da rua. Mas o perigo diminui quando levo apenas alguns segundos para voltar às rédeas da magrela motorizada.
Menos de um ano atrás, eu estava pilotando uma moto pela primeira vez na metrópole São Paulo. E o percurso não era dos mais fáceis: da Avenida Luiz Ignácio de Anhaia Melo, na zona leste, à minha casa, no Morumbi. Antes de você questionar, eu esclareço: só encontrei a moto almejada numa concessionária longínqua, daquele lado da cidade. Hoje, quando subo nela para ir para o trabalho ou para qualquer outro lugar, ainda produzo uma oração inconsciente, lembrando das cenas captadas pelos helicópteros do Datena nos finais de tarde, quando a quantidade de motoqueiros caídos no asfalto transforma-se em notícia que toma minutos demasiados na televisão. Após a curta oração que me livra desse pensamento, o motor aquecido e o capacete engatilhado, sigo em frente.
Tento não relar os guidões nos retrovisores dos carros a minha frente. Para isso, amplifico minha visão até que ela seja capaz de identificar qualquer movimento fora de série. O trânsito é análogo às movimentações internas de uma indústria. Mesmos movimentos, mesma linha a ser seguida. De moto, você só precisa se encaixar. E enquanto faço isso, instigo minha imaginação a produzir uma alternativa rápida e eficaz caso surja do além de minhas costas um assaltante de bancos em fuga alucinada, pronto para passar por cima de qualquer motoca 125 cilindradas. Lembro do último filme de James Bond. Em outras vezes, treino para levantar as pernas rapidamente dos pedais caso um carro venha beijar meus joelhos com seu pára-choque inconveniente. Estatísticas preventivas provenientes do lado esquerdo do meu cérebro mostram que planejar situações pode ser um ato útil no futuro. Meus planos são geralmente formulados em suas respectivas circunstâncias imediatas de acontecimento. Nunca antes delas.
Quando paro a moto antes da cancela do estacionamento, meus olhos estão vermelhos e levemente inchados. Culpa do vento forte e da poluição. A todo cisco que bate no meu rosto, lembro de arranjar logo uns óculos. Mas sempre postergo a compra. Para isso há explicação: quero adquirir um daqueles baratos, do camelô. Mas como nunca ando com dinheiro e os vendedores ambulantes ainda não aceitam cartões de débito, a possibilidade se anula. Deixo para depois.
Uma lágrima escorre do meu olho direito enquanto me estico para encostar o crachá – pendurado no pescoço – na caixinha de ferro responsável por emitir o sinal que levanta a cancela. Uma norma básica de segurança. Meus olhos lacrimejam por conta daquele vento. Logo os enxugo com os punhos. Volta e meia, antes da barreira do estacionamento da empresa se abrir, me deparo com a mensagem “Erro de leitura”. O segurança pede para que eu posicione a moto mais para a esquerda, com o objetivo de fazer com que o sensor de movimento identifique que eu estou lá, parado, esperando, louco para entrar e bater o cartão. Parece que a máquina me entende e o bloqueio se abre. Desvio da primeira lombada pelo canto reto da sarjeta e acelero.
A tempo, registro que estive em frente ao equipamento em que se assina o ponto. Depois de ter estacionado a minha humilde “duas rodas” ao lado de outras tantas mais potentes – Yamahas 1100 pretas brilhantes, Suzukis 600 amarradas a capacetes Shark de R$ 3.500 e Harleys como as do clássico filme “Easy Rider” -, provavelmente de posse dos altos diretores da empresa, caminho até a catraca. Trabalho em um departamento localizado do lado de fora do complexo empresarial onde fica o gabinete dos diretores, do presidente, a assessoria de imprensa e a ala dos profissionais em tecnologia da informação. Estou empregado na ouvidoria de uma companhia responsável por tratar do saneamento básico da maior cidade da América Latina. Filtrar a água que chega às torneiras dos paulistanos e coletar o esgoto oriundo dos vasos sanitários, pias e ralos destes cidadãos e de muitos outros do estado é “nossa” função – as aspas referem-se a um suposto patriotismo institucional que, só para constar, eu não tenho. Minha tarefa aqui é simples: redigir cartas que oferecem um “sincero pedido de desculpas” e lamentam “os transtornos vivenciados” por munícipes atendidos problematicamente pela empresa. Informo sobre as providências das unidades espalhadas pela cidade acerca das soluções dos entraves. Vazamentos de água, esgotos a céu aberto, contas altíssimas sem porquê, imóveis com dívidas de inquilinos antigos, etc. De certa maneira, sou pago para mentir.
Muitas vezes, encaminho cartas para a Câmara Municipal. Viaduto Jacareí, Centro. O refúgio dos vereadores de semblante sério e carismático. Representantes do povo. Aqueles que “na oportunidade [de expor uma mensagem à empresa]” renovam [às devidas “Vossas Senhorias”] os “protestos de suas distintas considerações”. Uma educação que ultrapassa os hábitos de príncipes ingleses. Tão mentirosa quanto as minhas cartas. Mas tudo bem. As pessoas andam convictas de que o mundo é assim mesmo.
Quando adentro o local de trabalho, pela manhã, posso sentir o cheiro do ambiente. Algo que caracteriza, de determinado modo, as épocas da minha vida. Pela minha experiência profissional de estagiário, garçom, DJ e de Figurante em comercial do Mc’ Donald’s, consigo concluir que cada local de trabalho possui um odor próprio. Mas sem origem comprovada. Como se todos os cômodos da cidade e do mundo estivessem inerentes à energias invisíveis. Um ser humano não tão sensível pode perceber isso. Logo que entro, percebo. Julgue-me esotérico e admirador do oculto, mas não desacredite minhas palavras. Algum sentido elas têm. Tão oculto quanto os reais problemas dos clientes da empresa, que emitem cartas via PROCON, num ápice da indignação humana. “Minha vizinha é magra de doente e tem que lavar a casa inteira, eu sou aposentado e não tomo banho há dias e a outra aqui da casa do meu lado tá que não consegue andar por que é obesa”, afirma um cidadão revoltado com a falta de água que atinge seu bairro. Para este caso, a resposta é simples. Na carta: “Informamos que foi agendada visita de equipe técnica ao local reclamado”. “Salientamos que este não é o padrão de relacionamento pretendido pela companhia”. Mas, na realidade das circunstâncias que provocam a revolta do aposentado, a água não chega até eles porque a rua fica no alto de um morro e nosso setor de investimentos ainda não destinou um único centavo para a construção de bombas que empurrem a água montanha acima. Isso não se fala. A resposta deve ser sucinta e garantir a satisfação do cliente. O desabastecimento ocorre por alguns períodos, apenas. Depois a água volta e as rotinas se normalizam. Como um arco-íris que aparece após a tempestade.
dei de cara neste endereço, ao acaso… li os 12 mil toques… que me instigaram a ler todos os outros caracteres deste blog. ótimos textos.
interessante como as diferentes categorias sociais de nossa cidade se misturam tanto no mesmo texto como no mesmo personagem,vivendo diversos papéis numa pequena fração de uma manhã de um dia comum…
Acompanho e adoro seus textos. Parabéns pela criatividade, crítica e simplicidade! Muita sorte!
Roubo a pasta quase sempre. Ninguém percebe. Deixo ela na mesma posição em que a encontrei.
NAO DORME.
Até que você leva jeito pra coisa ein mlk.
abrasss