Desocupação da favela: movimento artístico expõe a realidade dos moradores expulsos da Jardim Edith

29 04 2009

Mais de 300 famílias neste momento arrancam os poucos móveis e pertences guardados há mais de 15 anos sob o teto de suas residências, localizadas na favela Jardim Edith. Teto que já não existe em alguns dos barracos. Isso porque ali, na esquina das avenidas Berrini e Espraiada (alterada carinhosamente para Jornalista Roberto Marinho, em uma tarde do verão de 2004, por decisão da ex-prefeita Marta Suplicy), fiscais da Prefeitura e policiais militares do Governo Estadual avançam marretas sobre as telhas e as finas paredes de tijolos.

Muro da sala de estar após marretadas do Governo.

Muro da sala de estar após marretadas do Governo.

Em cada parede, abrem um grande buraco. O objetivo é deixar os imóveis equilibrados apenas sobre as quinas de muro. Pilares que logo serão arrastados por máquinas truculentas, conduzidas provavelmente por moradores de uma outra favela, em um outro terreno, em outra latitude, outra longitude. Porém, nada impede que estes também sejam despejados. Da mesma forma. Basta um dos seus patrões engravatados-municipais perceber o potencial de crescimento econômico do local. Basta o jornalista da avenida supracitada decidir pela construção de uma sucursal de sua emissora ao lado dessa favela. Basta apenas que os especuladores imobiliários reflitam cifrões nos olhos e que o governador do Estado alie-se à família de um soberano da imprensa brasileira e, a pedido dela, construa uma ponte inútil próximo dali ou de qualquer favela, qualquer lugar. São apenas suposições meramente calculadas. Mas a política informal existe, e corre pelos corredores das grandes empresas e por outros menores: os dos ouvidos dos gananciosos. Até que a informação chegue ao cérebro. O plano é simples: erguer um monumento que dá valor à região e, depois de os preços de terrenos estacionarem lá em cima, despejar os moradores pobres do local, indesejados pela nova população que irá ocupá-lo: a elite da cidade de S. Paulo.

Superfaturada ou não, o fato é que a gigante vazia custou R$ 233 milhões aos cofres públicos. Cascalho suficiente para construir mil quilômetros de ciclovias em São Paulo, manter por dez anos faixas de pedestre pintadas nitidamente em todas as esquinas da metrópole, construir 100 quilômetros de corredores de ônibus (hoje são 115km), além de inaugurar centenas de praças arborizadas. Dados sugados do site www.apocalipsemotorizado.net/2008/04/29/um-monumento-a-sociedade-do-automovel. Com essa grana também dá para pagar inúmeros ‘cheques-despejo’, milhares de marretas de ferro pesado e organizar trocentas licitações para a contratação de máquinas demolidoras. A opção está sob guarda daquele que você elegeu na última eleição.

Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira - investimento (e concreto) suficiente para a construção dos conjuntos habitacionais ausentes na cidade.

Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira - investimento (e concreto) suficiente para a construção dos conjuntos habitacionais ausentes na cidade.

Os moradores da favela Jardim Edith estão desolados. Sem opção, receberão um cheque-despejo no valor de R$ 8 mil da administração municipal por meio de recursos concentrados na Secretaria de Habitação. E assim deitarão em camas distantes. São pagos para sumir dali. Afinal, estão encravados no coração de uma região considerada nobre. Que se tornou nobre. Encontram-se cercados por edifícios resplandecentes, onde elevadores comportam diálogos compostos por até três idiomas diferentes. Quando trabalhei no décimo andar de um desses, para um patrão que acordava todas as manhãs pensando no que fazer para eleger o atual prefeito, que expulsa os moradores da favela através de articulações com a Câmara Municipal, desci à rua durante um horário de almoço e observei. A favela fica muito próxima ao hotel Hilton, ao World Trade Center paulistano, e à Rede Globo de Televisão. Enquanto os funcionários desses ambientes repletos de ar condicionado – eu era um deles, no caso – procuravam uma vaga para almoçar nos milhares de restaurantes e lanchonetes que pipocaram na região nos últimos anos, resolvi dar uma olhada na ala em que ninguém vai, a favela Jardim Edith. Ali, por R$ 5,00, comi arroz, feijão, alface, tomate e suculentos pedaços de frango frito caseiro. Tudo acompanhado por 600 ml de tubaína gelada.

Sofás descansam onde antes faziam descansar.

Sofás descansam onde antes faziam descansar.

Agora, moleques que foram criados no local caminham descalços sobre lascas de telha quebrada, fios elétricos descascados e objetos inutilizados deixados para trás pelos moradores expulsos. Cada barraco pré-danificado pelo poder público corre o risco de desabar a qualquer momento. Os moradores já experimentam a nostalgia de seus lares. Sentem falta dali antes de irem embora. A maioria passará a  compor outras favelas. Alguns ocuparão a casa de parentes e outros decidirão na hora o que fazer. Mas enquanto não arranjam um futuro definitivo, assistem a vizinhança desmoronar a cada segundo, a cada marretada. A favela inteira será reduzida a pó.

Restos de sala, cozinha, banheiro e quartos escorrendo pela porta de entrada.

Restos de sala, cozinha, banheiro e quartos escorrendo pela porta de entrada.Desocupação da favela Jardim Edith: o sonho da casa própria vira entulho.

O grafite e a arte de rua tomou conta da favela no domingo de feriado, 19 de abril de 2009. Como maneira de protestar contra a covardia e a celebração da política higienista praticada por Kassab, Serra e outros da mesma laia, cerca de 30 artistas se reuniram num movimento repleto de tinta e de mensagens contra a expulsão das famílias. Organizado por Mundano, artista que periodicamente sai às ruas com tinta nas mãos e mensagens em pensamento prestes a serem pintadas, a conferência de grafiteiros patrocinou a alegria das crianças jardim-edithianas. Acreditando na capacidade da modificação das diretrizes sociais a partir da expressão artística e do poder que as mensagens em tinta têm em provocar a reflexão no povo embutido em mandamentos duvidosos de um governo eleito pela televisão, Mundano também criou protestos contra a vizinha monumental Ponte Octávio Frias de Oliveira. Na ocasião, o artista rogou por “menos concreto, mais árvores”.

Ponte pela metade: "menos concreto, mais árvores", intervenção de Mundano. Foto: Thiago Ackel

Ponte pela metade: "menos concreto, mais árvores", intervenção de Mundano. Foto: Thiago Ackel

Mundano colorindo muros que em poucos dias estarão no chão. Foto: Denise Aires

Mundano colorindo muros que em poucos dias estarão no chão. Foto: Denise Aires

Estive na favela por poucas horas. Logo percebi que a paisagem caracteriza a ausência do Estado naquele pedaço de chão. A eletricidade é gerada por meio de gatos e o esgoto é despejado diretamente em galerias de águas pluviais, o que faz com que todo resíduo proveniente da favela siga diretamente para os rios Pinheiros e Tietê. A Secretaria de Habitação afirma que no local será construído um conjunto habitacional com vagas para mais de uma centena de famílias. Assim, os antigos moradores terão a chance de voltar ao lar. Eles ganharão descontos na compra dos apartamentos.
gato
Mãe e filhos caminham sobre quintal de imóvel destruído.

Mãe e filhos caminham sobre quintal de imóvel destruído.

 

As fotos aqui postadas sem os devidos créditos são de minha autoria.


Ações

Informações

4 respostas

14 05 2009
Felipe Carneiro

Muito bom o texto. Gostei do olhar crítico. Mas a culpa não é só dos prefeitos e ex-prefeitos da cidade. A população também é culpada. Quem paga impostos e não exige, também tem culpa. O comodista cidadão brasileiro, há sempre de querer ser alguém do que querer ser si próprio. E exemplos de formas fabricadas de sujeito não faltam no conteúdo que recheam nossas emissoras de TV. Fez um belo trabalho.

17 05 2009
Marina Spirandelli

Estou escrevendo um artigo sobre Moradias Populares, com foco em soluções para favelas em áreas valorizadas comercialmente… soluções que permitam a permanência das famílias. Isso é possível! Eu trabalho próximo à Berrini e o que me motivou a escrever esse artigo para minha pós em Projetos Sociais foi justamente a favela do Jardim Edith. Parabéns pelo registro feito! Temos que usar cada vez mais nosso poder de publicação na web.

25 05 2009
giba

MUITO BOM OS COMENTARIOS FEITO POR TI,ADOREI AS MATÉRIAS,AS FOTOS TBM ESPERO Q O PROMETIDO PELA PREFEITURA EM CONSTRUIR OUTRAS MORADIAS NO LOCAL SE CONCRETIZE PARA Q AS PESSOAS Q SAIRAM D LÁ RETORNE,EMBORA ACHO ISSO MUITO DIFICIL, MUDARÁ AS MORADIAS MAS O CONTEÚDO CONTINUARÁ O MESMO.CONHEÇO MUITO ESTA FAVELA JÁ MOREI LÁ E SEI TD SOBRE ELA,QUÉRO MUITO ACREDITAR Q UM DIA AQUELAS PESSOAS Q SAIRAM D LÁ RETORNARAM,EMBORA ACHO ISSO MUITO DIFICIL ! QUÉRO RETORNAR LÁ REVER AS PESSOAS ABRAÇOS.

25 05 2009
giba

gostaria q vc publicasse sobre a morte q teve lá dia 15/05/09 sexta a irresponsabilidade,e a falta d respeito pelos moradores da favela é tão grande q poucas pessoas ficarão sabendo,um muro caio por cima de um morador antigo da favela q estava se recusando a sair pelo valor miseravel q eles estão pagando para o povo desta favela,tenho minha opinião pessoal sobre o assunto,ele morreu na sexta e enquanto a familia estava velando o corpo no cemitério do são luis ,eles estavão derrubando o barraco do mesmo!

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