Traficantes mortos em frente à Praça dos Elementos Químicos… e nínguém comenta.

8 07 2009

São Paulo, zona Leste, 21h16 de uma terça-feira. Para ser mais exato, da terça-feira. 30 de junho de 2009.

Foi no dia em que dois traficantes, abordados por uma Blazer da Força Tática do 28° Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, resolveram mirar suas pistolas ponto 40 contra as reluzentes lâmpadas giratórias da viatura e, mais precisamente, sobre os ocupantes que se encontravam sob elas. O primeiro disparo desencadeou a reação imediata dos policias.

(Na favela Maria Luiza, distrito de Itaquera, onde ocorreu este tiroteio, a polícia não coleciona  muito crédito dos moradores. A versão descrita acima é oficial. Ou seja, partiu da Polícia Militar e Civil do Estado. É a versão que, pela manhã, vai parar nas manchetes do jornal).

O crime ocorreu na rua Mariz Sarmento, numeral 100, no Parque do Carmo, local próximo à favela Maria Luiza. Rua em que fica uma praça cheia de árvores.

O “crime”, no caso oficial, é o tráfico de entorpescentes e o porte ilegal de armas de fogo, além do atentado contra os fardados. Baleados, os traficantes foram mortos pela PM.  A morte deles não é exatamente  considerada um crime. Eles reagiram à abordagem. A versão é oficial. Naquele momento, não havia testemunhas no local. Como no jornalismo as versões só podem ser oficiais, pois os repórteres nunca mais se dirigiram até o local para apurar a morte de supostos criminosos, a verdade ficou como esta descrita acima.

(Sergio Gomes, da Oboré, que me dê licença, mas os repórteres não estão tão aptos a dizer que durante a parada Gay na avenida Paulista estavam menos pessoas que o contabilizado pela CET e pela PM. Mesmo com as contas não batendo, a imprensa exige uma posição oficial. É onde mora o temerário. Repórteres de hoje não fazem mais contas e não checam porra nenhuma. Apenas reproduzem).

Duas pistolas ponto 40, os mesmos modelos recebidos com alegria por policiais do 11° batalhão de Cianorte, cidade do interior do Paraná, foram apreendidas. O capitão Elias Ariel, da cidadezinha paranaense, comemorou:  ” Essa pistola não atravessa o corpo de quem for atingido, garante mais segurança para a população”. Precioso argumento, não fosse a possibilidade de se atingir um cidadão comum tão inerente aos pensamentos do militar.

Além das automáticas, os dois traficantes mortos portavam munições, comprimidos de ecstasy e pinos de cocaína. Isso faz com que, aqui, sejam denominados “traficantes”. No 53° Distrito Policial, onde o caso foi registrado, não souberam informar a quantidade exata das drogas apreendidas. Elas foram levadas ao Instituto de Criminalística, no Butantã. Enquanto os corpos caídos, resultado do tiroteio, foram ”socorridos” no PS Santa Marcelina. Não teve jeito, entraram em óbito.

O delegado me recomendou: “Durante horário comercial, entre em contato com a Secretaria de Segurança Pública para maiores detalhes”. Apesar da dica aparentar grande potencial solucionador, não a segui.

Curioso é que a abordagem policial, o tiroteio, as mortes, a apreensão das armas e das drogas, tudo aconteceu em frente a um mesmo local: a Praça dos Elementos Químicos, zona Leste de São Paulo. Seria cômico se não fosse trágico, e vice-versa.