Diário de viagem em Paraty (6)
Publicado; outubro 13, 2011 Filed under: Uncategorized | Tags: cachoeiras, camping, Maneco, paraty Leave a comment »Segunda surpresa do dia: saltitando de pedra em pedra, seguindo o fluxo gelado e suave do rio, descobri um gigantesco tronco caído ─ enorme mesmo, uma ponte roliça, uma rampa de quase 20 metros de comprimento. Embaixo dela, uma magnânima queda d’água, não muito grande, não muito alta, mas forte o bastante para me fazer crer que era preciso, necessário, chegar até lá para este desbravador sentir-se completo. Eu precisava alcançá-la, aquelas gotas violentas bem embaixo do meu nariz, a centímetros… Mas a geografia das pedras era complicada.
Coloquei na cabeça que aquilo era necessário ─ insisto. Lavaria minha alma, lançaria minha mente a léguas de distância da melancolia ocasionada intermitentemente pela saudade, pela solidão. Para atingir o objetivo, eu teria de descer, passo a passo, pelo enorme tronco, que estava aos fiapos, úmido e aparentemente podre, alcançar o lago, lançar-me nele e nadar contra a correnteza potente. Era um bom desafio. Eu tinha que superá-lo.
Comecei a imaginar. Cobras pequenas, médias, grandes, uma sucuri descomunal emergindo do fundo escuro e se enrolando no meu corpo, quebrando meus ossos, sem chance de socorro diante da mata solitária e ─ como disse João Ubaldo ─ da total indiferença dos acontecimentos naturais. Imaginei outros pânicos profundos, mas pulei naquele lago por impulso. E, por instinto (o de sobrevivência, no caso), nadei como um louco até a pedra que repousava imóvel, há pelo menos 1500 anos, atrás da queda.
Era muita água. Gelada. Gritei. Meti a cabeça na cortina cristalina e passei numerosos segundos berrando alto, com a certeza de que aquela era a sensação protagonizada por Kelly Slater, quando permanece dentro de um tubo tempo suficiente para que as pessoas dêem a onda como perdida, e de repente ele é cuspido para fora, como num tiro de canhão. Depois da queda d’água, congelante e renovadora, mergulhei em pequeninas cachoeiras sob o sol escaldante e estalante, sol das 10, 11 horas da manhã. Lavei as axilas, esfreguei as partes baixas, agarrei meu cinto, minha faca, calcei os chinelos azuis e corri pela trilha, de volta à praia. Eu queria me estirar na areia quente, naquela praia com sol forte e muita água salgada.