Diário de viagem em Paraty (7)

Sete de maio de 2011. Baixíssima temporada nestes lados úmidos do Rio de Janeiro. Que ócio! São quase nove horas da manhã. Inaugurei minha geleia de amora  - e ainda falta comer muito para que o peso da bagagem desapareça. Aguardo ansioso pela chegada de Seu Maneco, que está em Paraty, há três dias dando um jeito no casco podre do barco que adquiriu por 25 mil reais. Vou pedir ao velho caiçara que me devolva a metade do dinheiro que lhe dei como adiantamento de dez dias de hospedagem no camping. Pretendo ir a Pouso da Cajaíba amanhã, domingo, e por lá ficar até segunda-feira, dia em que há barcos para Paraty. Cheguei na terça-feira, 3. Vou pagar por seis dias de camping, o que dá 60 reais. Por isso, Seu Maneco terá de me devolver 40 reais – espero que ele não arranje desculpas.

Que ócio é ficar aqui por mais de três dias quando se está só. Talvez eu telefone para meu irmão e o questione sobre as condições e a localidade exata de uma pousada barata em Ubatuba, para dar sequência à viagem. Talvez eu volte para abraçar minha mãe, beijar a Karine e visitar todos os shoppings, lojas, cinemas e templos da civilização moderna afogada em tecnologias mil. As ondas estão pequenas em Martim de Sá. Bruno, neto de Seu Maneco, avisou que, hoje ou amanhã, seu tio acionará o motor de um bote voador sentido Paraty. Lá, o homem fica e Seu Maneco volta. Seria razoável aproveitar a carona, mas temo pela minha grana: e se o velho caiçara estiver sem minhas notas? Eu preciso delas.

Oh céus, oh vida! Como é duro não ter o que fazer sem companhia. Fazer nada em dupla, que seja, é muito, muito melhor. Sozinho, agora, me falta a vontade necessária para caminhar até o poção, o encontro das águas, ou enfrentar a trilha à Sumaka. A aventura solitária de ontem, pelas cachoeiras, me surpreendeu. Sozinho, aqui, eu apenas costumo andar na praia e pegar a trilha para Pouso da Cajaíba. A vida é dura na solidão. Uma impaciência terrível explode em centelhas de desespero dentro de mim, mas não tão grave assim. É um desespero suave. Uma saudade constante de tudo. Se há alguns minutos eu estava num canto da praia descascando uma laranja, feliz e contente, e agora repouso no canto oposto da faixa de areia, olho para aquele lugar e sinto falta do momento que vivi minutos antes, saudade de mim mesmo sentado na pedra, saudade da laranja, do ato de descascá-la, porque sei intrinsecamente que aquele foi um instante único, inédito, estéril. Nunca haverá outro igual. E a solidão potencializa esse apego fenomenal, gigantesco, assustador.

Obs: Tenho que ressaltar uma coisa aos leitores desta página: as mais recentes publicações do Diário de Viagem em Paraty, admito, estão lamentavelmente melancólicas, melosas e, às vezes, me dão enjoo. Isso vai mudar nos próximos e últimos dois capítulos.



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