Diário de viagem em Paraty (fim)
Publicado; janeiro 28, 2012 Filed under: Uncategorized | Tags: abóboras orgânicas, che lagarto, gringos, hostel, Joatinga, martim de sá, paraty Leave a comment »Estou em Paraty, num albergue maluco chamado Che Lagarto. Acordei cedo em Martim de Sá, por volta das 6 horas, saí logo ligeiro pelo caminho da praia, atravessei aquela ponte em formato de flexa, agora cimentada com perfeição, e dei de cara com um mar pós-ressaca, rugindo sem intervalos. Dobrei os olhos em todas as direções em busca do Pedro Henrique, homenzinho cheio de marra, que com certeza sairia igualmente ligeiro com sua lanchinha só para tentar fugir da possibilidade de me dar uma carona. Ele não estava lá, era preciso esperar. Esperar que nada. As gorduchas que tinham chegado a Martim de Sá para o Dia das Mães já se arrastavam entre galhos e galhadas lá no meio da trilha, e com elas o caiçara que ia pilotar seu velho barco bate-bate até Paraty. Era a chance de me mandar dali.
Juntei minhas coisas e segui pela trilha com meu parceiro Tiago, maluco maluquíssimo do Rio de Janeiro, que abandonou seu quarto urbano de apartamento numa avenida na Tijuca, de frente para um enorme cartaz publicitário cujas luzes se apagam às 4 horas da madrugada e bem sobre o barulho truculento dos ônibus municipais, para mergulhar numa sala de aula no vilarejo do Pouso da Cajaíba, como professor, e ensinar todas as disciplinas fundamentais aos cidadãos que nada sabem, como se tivesse mais sucesso lecionando português e matemática do que se discursasse com primor sobre nhames, abóboras orgânicas, agroflorestas e espiritualidade, assuntos que lhe transformam num verdadeiro mestre autodidata. Tiago preparou com singular habilidade a feijoada vegetariana que nos alimentou durante o fim de semana e que, no fim da trilha que fazíamos agora, ansioso para encontrar as gorduchas ainda estiradas nas areias de Pouso da Cajaíba, senti cada nhame e chuchu, cada naco maciço de batata-doce-cenoura (uma espécie alaranjada), cada feijão azuki se expandir dentro da minha barriga, que se contraía no limite, e quase faço tudo nas calças. Parei para respirar e rezar, rezar para aquela sensação voltar mais tarde, quando eu tiver uma boa oportunidade. Foi quando ouvi o bate-bate do barco das gorduchas estalar no horizonte, sentido mar aberto. Foi-se embora minha carona.
Agora, cá estou eu em Paraty. Atravessei o centro histórico rumo à periferia cheia de histórias, bati na porta de Seu Maneco e peguei de volta meus três dias em dinheiro vivo, por ter saído de Martim de Sá hoje, segunda-feira, e não na quinta-feira prevista. Trinta reais divididos em uma nota de vinte e outra de dez, novas em folha. Almocei numa lanchonete “a la Mc’Donald’s”, lembrei que a civilização existe e que às vezes é boa. Dali parti diretamente para uma sorveteria que vendia sorvete feito com uma fruta chinesa não identificada. Escolhi ela, manga e ferreiro rocher. E depois de ter saído de Pouso da Cajaíba num barco alugado pela prefeitura de Paraty para transportar professores às escolas de vilarejos distantes, cujo dono, Telmo, topou levar-me sem problemas, e depois de ter feito um pit-stop na Ponta da Joatinga, aproveitado os pés-de-pato de Telmo para estrear meus óculos de mergulho de R$ 29,90 naquelas profundezas azul-turqueza, cheguei à antes desconhecida por mim Praia Grande, vilarejo a dez quilômetros de Paraty, e, com Waldemar, um negro magrelo que foi a Joatinga consertar os encanamentos da única escola, montei na caçamba de um caminhão e voei os dez quilômetros com poeira de cimento nos olhos, porque aquela caçamba só carregava cimento e areia, e pulei na rua de paralelepípedos da rodoviária. Dali fui andando leve e sonolento até o hostel Che Lagarto.
Cá estou eu cercado de gringos que devoram asas de frango e linguiças rosadas de porco neste magnífico churrasco de albergue, mais conhecido como “the night of the barbecue”, como anunciam as letras garrafais estampadas na lousa verde.
Oras, cá estou eu novamente, minutos depois, como um legítimo Jack Kerouac cansado, mas também animado, animado. Só língua inglesa ao meu redor. Maluco depois de uma conversa boa, com os olhos ardendo de “graudualidade”, ouvindo Bob Marley gritar & berrar em bom tom e lutando para decifrar as entranhas maiúsculas dessa nova liberdade.
Observação: Escrevi a série “Diário de viagem em Paraty” durante poucos e curtos quinze dias, quase isso, que marcaram o fim das minhas primeiras férias na Veja. A óbvia inspiração dos registros está na obra de Jack Kerouac, escritor norte-americano de Lowell, Massachussets, cujos livros fiz questão de carregar e devorar durante toda a viagem. O fim da série de textos dá início à surpresa anunciada no subtítulo deste blog. Informo aqui, neste rodapé tímido e quase despercebido, que estou a caminho da Austrália, onde devo morar por algum tempo. E isso significa que este mísero espaço sem qualquer audiência relevante volta a ter rotatividade plena. Saudações, Bruno Abbud
