Fiz uma matéria nesta semana para o jornal da faculdade. Nos bastidores de sua realização percebi coisas curiosas sobre o jornalismo. Primeiro, o mais óbvio. Mas mesmo assim algo que merece discussão, porque toda a obviedade que se vê sobre assuntos importantes acaba afastando a possibilidade da reflexão. Existem fontes que fornecem ao jornalista informações em off. Ou seja, algo que sirva apenas para guiar o repórter sobre o assunto falado. O jornalista não deve, a priori, utilizar tal informação na matéria. Portanto, tem a sua escolha. Se julgar a informação como de interesse público – como na maioria das vezes é – o repórter então publica e perde uma fonte importante. Se preferir conservar a fonte, então deixa de cumprir com parte de seu dever. No meu caso, na matéria que postarei a seguir, tentei mostrar a realidade da informação em off – que escolhi não publicar para não perder a fonte – através de outras fontes que permitissem seus depoimentos publicados. Acho que isso funciona. Mas nada como uma fonte oficial declarando o que o repórter quer ouvir. Enfim. Percebi também que algumas pessoas com quem falei – minha matéria é sobre a faixa de motos da Avenida Sumaré, em São Paulo – modificavam suas posturas originais por conta do repórter, no caso eu, estar em cima de uma moto em grande parte das entrevistas e ter até conversado com as fontes vestindo um capacete. Ora, se o assunto é motoqueiro, como falar mal nessa situação. Outra coisa, tão comentada por muitos jornalistas do planeta, é a inibição gerada pela presença invasora do gravador, no meio do diálogo, separando os interlocutores. Esse aparelho, com certeza, intimida o entrevistado. A seguir, a matéria:
Projeto da Prefeitura compromete segurança na zona Oeste
O número de acidentes envolvendo motociclistas na Avenida Sumaré, zona oeste de São Paulo, aumentou desde a implantação da faixa exclusiva para motos nos dois sentidos da via. Moradores e funcionários de empresas da região reclamam da falta de segurança e garantem a ineficácia da tentativa da Prefeitura de melhorar o trânsito no local. “O número de acidentes aumentou depois da faixa. Eu estou aqui há 28 anos e nunca vi tanto acidente como agora”, afirma o frentista José Sebastião – com um olho no gravador e outro na avenida onde fica o posto de gasolina que lhe garante o sustento – sobre os últimos meses desde a implantação da obra, em 2006. “Em um ano e meio eu já vi mais de 50 acidentes aqui. Quase todo dia tem um”, completa. De acordo com Sebastião, o que gera a maior parte dos acidentes é o fato da pista reservada aos motoqueiros ser muito estreita, sem permitir espaço para possíveis desvios de emergência. Há quem concorde. “A pista é muito estreitinha, tinha que ser mais larga”, desabafa o motociclista Edicarlos Vieira dos Santos. Segundo ele, muitos pedestres invadem a faixa exclusiva, que beira a calçada, e outros motoristas desatentos acabam ocupando algum espaço no decorrer da avenida. Mesmo com tantos obstáculos, Edicarlos sente-se mais seguro quando transita pela via reservada – assim como os demais motociclistas consultados pela reportagem.
Para Alcione Nalberto, também frentista de um posto instalado na Sumaré, a contribuição maior para o aumento no número de acidentes vem da imprudência dos paulistanos no trânsito. Tanto dos motoqueiros, quanto dos motoristas e pedestres. “Eu vejo pedestre bem desligado atravessando a pista. Por isso tem acidente. Todo mundo fala dos motoqueiros, mas a culpa é de todos”, afirma. Comerciantes do local apontam o cruzamento da Rua Bartira com a Avenida Sumaré como um dos mais perigosos da região. Ali, segundo Edmilson Conceição, funcionário de um estabelecimento do bairro, muitos carros fazem a conversão proibida para alcançarem o sentido centro da avenida e acabam invadindo a faixa exclusiva. Resultado: as colisões são inevitáveis. “Hoje mesmo teve um carro que atropelou um motoqueiro aqui na frente. Acontecem muitos acidentes nesse cruzamento, já vi até três em um dia”, revela a frentista Alcione, que apesar de assistir as batidas de camarote – o posto em que trabalha fica em frente ao cruzamento-perigo – avalia a implantação da faixa como uma melhoria para o trânsito.
Observando por outro ângulo a obra da gestão do prefeito reeleito Gilberto Kassab, os motoristas que passam todos os dias pela Sumaré aprovam a medida. “Acho que facilita tanto para vocês, como para nós”, afirma o taxista Marcos Coimbra, após avistar o repórter em cima de uma moto. E completa: “Deveriam fazer mais faixas como essa”. O carteiro Ronaldo Silva, pedestre assíduo da região, afirma que a exclusividade de uma via para motos contribui com o trânsito pelo fato dos corredores entre os carros permanecerem vazios. “É mais prático, o pessoal respeita bem. Nunca vi acidente”.
O outro lado
Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a faixa exclusiva para motos que tem início no final da Avenida Henrique Schauman, percorrendo toda a Avenida Sumaré e com fim na Praça Marrey Junior, em Perdizes, é um projeto experimental da Prefeitura. A implantação de novas vias reservadas aos motociclistas está em fase de estudos pela administração municipal. Se depender do vigilante Célio Roberto Oliveira, que trabalha há quase dois anos em uma agência bancária da Sumaré, os projetos já podem ser interrompidos. “Mais faixas como essa não resolveriam o problema. Elas prejudicam muito o trânsito. Depois que construíram essa aqui, os acidentes só aumentaram”. A maioria das colisões, segundo apurou a reportagem, envolve pedestre e motociclista, que sem chance de desvio, acaba atropelando os transeuntes desatentos. A invasão dos carros na pista reservada às motos também ocasiona grande parte dos acidentes. De acordo com a CET, os motoristas que invadem a faixa exclusiva cometem infração grave, o que significa o pagamento de multa no valor de R$ 127,69, mais punição de cinco pontos na carteira de habilitação.
“Falta uma fiscalização mais rígida na avenida. Se colocassem câmeras, talvez resolvesse”. A afirmação partiu da frentista Gilvania Guedes, que trabalha há sete anos na Avenida Sumaré. “De lá pra cá aumentou bastante o número de acidentes. Logo que colocaram a faixa, uma senhora foi atropelada e morreu”, afirma. Segundo a CET, apenas um radar fixo, que mede a velocidade dos veículos, está instalado na Avenida Sumaré, próximo aos viadutos da Avenida Doutor Arnaldo. A instalação de novos radares móveis – daqueles que permanecem sobre um tripé – está em andamento.
No início do ano, a Prefeitura ensaiou uma nova pista exclusiva na Avenida 23 de Maio. Também como teste, a obra foi feita de maneira improvisada, com agentes da CET que enfileiravam cones para separar os carros das motos, reservando uma das faixas da avenida para os veículos de duas rodas. Os motociclistas aprovaram, mas o trânsito de automóveis travou. O Prefeito Gilberto Kassab e o secretário de Transportes do município, Alexandre de Moraes, resolveram acabar com o projeto, que não durou mais de uma semana. Os engravatados alegaram que o aumento no índice de lentidão já era suficiente para suspender os testes.