Caminhão entala em túnel e derruba viga sobre carro em movimento

13 02 2009

 

22h e poucos minutos – Eu estava voltando da faculdade, com a chuva que insistia em embassar a viseira do meu capacete, quando avistei o que não poderia ser: o túnel Ayrton Senna estava fechado. Imaginei que estaríam realizando algum tipo de manutenção, mas quando contornei para alcançar outro caminho percebi um movimento além do normal. Fiz a volta.

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Parei a moto em uma ruazinha escura e corri até a boca do estrago. Um caminhão que carregava tapetes trazidos de Guarulhos e com destino à Vila Olímpia não percebeu a altura limite do túnel e entalou na viga de ferro que beira a borda do tubo de concreto. Ao dar ré, para tentar escapar, o motorista do caminhão derrubou a estrutura que alertava sobre o limite de altura dos grandões, atingindo uma Zafira preta. No carro, havia uma mulher – a motorista -, uma menina e um garoto de no máximo 7 anos.

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A viga de ferro atingiu a traseira do automóvel. Ninguém se feriu. Os maiores mal tratados nessa história – além de seus personagens principais – foram os motoristas paulistanos que voltavam para casa pela Avenida 23 de maio, que com o incidente ficou ainda mais congestionada.

Abaixo, entrevista com um dos tripulantes do caminhão, que relutou para falar e , no final, no ponto em que a gravação é interrompida, desiste de vez quando avista o proprietário da transportadora, seu patrão.





Ainda daquele ângulo, o Rio Tietê.

9 02 2009

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O Rio Tietê não está completamente abandonado pelo poder público. Alguma coisa o Governo faz. Mas não (e quase nunca)  a partir de iniciativa própria. Em 1992, uma população de 1,2 milhão de paulistanos organizou protesto em favor da despoluição do rio. Essa ideia de mandar o Estado limpar a sujeira produzida pelo próprio povo pode parecer um tanto ridícula, mas lembre-se que metade daquela poluição é oriunda de indústrias mancomunadas com a administração pública. Enfim.

A indignação do cidadão da capital originou um documento com uma assinatura por cabeça reivindicante. Ou seja, 1,2 milhão delas. Isso deu início ao Projeto Tietê, invenção do Governo do Estado por meio da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, a Cetesb. Além de participarem o Departamento de Águas e Energia Elétrica – DAEE – e prefeituras municipais.

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De acordo com a Sabesp, “as ações necessárias para a recuperação dos rios da Bacia do Alto Tietê vão além do saneamento básico. Abrangem as áreas de controle da poluição industrial, controle da utilização de recursos hídricos, abertura e urbanização de fundos de vale e controle de resíduos sólidos, além da educação ambiental”. Ou seja, uma tonelada de investimentos regulares.

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Porém, durante a primeira etapa do projeto de despoluição – de 1992 a 1998 – foram investidos R$ 1,1 bilhão. Em seis anos. Quase R$ 200 mi por ano. Uma mixaria. Veja: em novembro de 2008, o governador José Serra (PSDB) anunciou uma linha de crédito da Nossa Caixa no valor de R$ 4 bilhões para a aquisição de veículos. Isso mesmo, quatro mil milhões. Ele desejava estimular o consumo de automóveis no estado. Incentivar a compra de cuspidores de óleo que vai parar, juntamente com todo o resto do lixo urbano, no Rio Tietê. Apenas um pequeno paradoxo cometido pelo tucano.
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Para a segunda fase do projeto, o governo assinou financiamento – em 2000 - com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). US$ 400 milhões (sim, desta vez em dólares) foram investidos pela Sabesp nesta segunda fase, que terminou em 2008. Com o fim desta etapa, o índice de coleta de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo (o Projeto Tietê age além da área do rio) saltou de 80% para 84% e o de tratamento dos resíduos de 62% para 70%. Agora, você pensa que falta dinheiro para investir na saúde da população? A crise está aí, derrubando as vestimentas do governo e diminuindo os cofres públicos para que as grandes empresas sobrevivam. É natural, o país precisa crescer, a economia fluir e o meio ambiente apodrecer. Dê uma olhada no crescimento desenfreado nesse video a seguir. Imagine quanto lixo gera uma obra desse porte. E tente adivinhar – por pura curiosidade – se a prefeitura instala banheiros para os operários ou se eles despejam seu ínfimo esgoto nas águas fétidas que lhes ocupam o cenário rotineiro.
 

 
 
 

 

 





Rio Tietê, de um ângulo que não é o da janela de seu carro.

4 02 2009

 

Tive a oportunidade de navegar pelo Rio Tietê na semana passada. Mais precisamente pela sua parte que cruza São Paulo. Antigamente, haviam campeonatos de natação e clubes de remo nesse rio. Aliás, nessa parte do rio. Atualmente, no interior do estado, o Tietê se transforma na praia de cidades que estão mais de 500 km distantes do mar. Limpo, como era aqui na metrópole 80 anos atrás.

Hoje toda a sujeira despejada nas ruas da cidade vai parar no rio. Se você joga uma bituca de cigarro pela janela do carro, em menos tempo do que você imagina ela já está mergulhada nas águas fétidas do Tietê. Basta chover. A água arrasta tudo para o rio. Isto é, para as bocas de lobo e galerias de águas pluviais, que consequentemente desembocam nele.

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Embarquei nesse veículo acima, pertencente a uma empresa particular. Nada relacionado à prefeitura ou ao Estado. Uma ONG – o Instituto Navega Sao Paulo – é quem organiza essa visita especial, com a intenção de tentar conscientizar a população urbana da sujeira que produz. O barco possui três andares. Neles, dois banheiros – que com quase toda a certeza tem seus resíduos de esgotos despejados diretamente no rio. Apesar de tentar, não consegui apurar esse fato.

A empresa que aluga essa jangada gigante oferece pacotes especiais para quem quiser realizar eventos sobre o rio mais poluído do país. Cinco mil reais é o preço fixado pelo aluguel do espaço. Por uma noite. Há pouco tempo atrás – acredite – houve uma festa rave ali. Em plena madrugada, no Rio Tietê.

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Puro lixo: encontre o seu.





Laurentino Gomes, antes de tudo um repórter.

5 12 2008

Em entrevista, o jornalista conta como começou. Desde que inaugurou sua carreira nas páginas de um jornal local do interior do Paraná até sua inestimável experiência na cobertura do garimpo do ouro em Serra Pelada, nos anos 80. E mais.

 

“Desde que seja exercido através da reportagem, o jornalismo é a melhor profissão do mundo”. A afirmação carrega a paixão e a experiência do jornalista paranaense Laurentino Gomes, último levantador do troféu de Livro do Ano, na categoria “não-ficção” do Prêmio Jabuti de literatura. A obra eleita vencedora pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) foi “1808”, poderosa reportagem que reconta parte da história do Brasil de maneira descomplicada.

Mas nosso entrevistado não nasceu rodeado por aplausos de reconhecimento. Foi só depois de trinta anos de redação (na verdade, de redações) que Laurentino passou de repórter a escritor. Ou melhor: a repórter-escritor. Ele explica: “É a reportagem que faz o encanto e a aventura da profissão, porque dá direito ao jornalista de fazer perguntas, conhecer pessoas, estudar e aprender o tempo todo”. Na história do contador de histórias, a prática jornalística não poderia aparecer de outra forma.“O jornalismo entrou na minha vida como pura diversão – e diria que continuou assim pelos trinta anos seguintes”.

Laurentino ainda assistia a aulas no colégio, em plena década de 70, quando se deparou com sua futura profissão pela primeira vez. Integrante de um grupo de teatro amador em Maringá, interior do Paraná, começou a produzir conteúdo para as edições de domingo de um jornal local. As matérias eram sobre cultura, mas ainda aterrisariam assuntos de todos os tipos sobre a carreira do jornalista.

Ele gostou tanto da experiência que decidiu cursar jornalismo na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. “Dois anos mais tarde, eu estava trabalhando como repórter, cobrindo política para outro jornal local”. A partir daí, Laurentino esteve na sucursal paranaense do jornal O Estado de S. Paulo. Não parou. Foi contratado pela editora Abril, onde recebeu da revista Veja a oportunidade de abraçar o sonho de todos os aspirantes a repórter e jornalistas recém-ingressos na profissão: Rodou o Brasil por quinze anos atrás de histórias diferentes. “Viajar e conhecer o país como repórter foi uma aventura maravilhosa. Eu custava a acreditar que ainda me pagassem salários para fazer isso”, conta. Já com uma vasta experiência na área, voltou a trabalhar no Estadão – desta vez em São Paulo – como editor de Política. Editou também o caderno Cidades do Jornal da Tarde e dirigiu um grupo inteiro de revistas femininas e masculinas na editora de Victor Civita. Hoje, três décadas mais tarde, o veterano dá mais um passo em sua caminhada profissional. Está afastado das redações. Deixou-as há poucos meses para se dedicar à trabalhosa apuração dos livros-reportagem.

 

O preço da reportagem

 

O antes de tudo repórter, Laurentino Gomes, desfruta de experiências ímpares em sua carreira. Só uma trajetória como a dele poderia comportar tantos relatos. Em 1985, no auge do garimpo do ouro no norte do Brasil, foi buscar no Pará as notícias dos que conseguiram encontrar jazidas do minério precioso. O cenário: Serra Pelada. Milhares de garimpeiros de todo o país buscavam a riqueza súbita. Laurentino mirou em um deles, o mais rico. Queria escrever sua história. O minerador havia enriquecido rapidamente, encontrara ouro o suficiente para isso. “Ele não se deixava fotografar e recusava dar entrevistas. Foi assim por semanas. Mas, à sua revelia, consegui apurar todas as informações e “roubar” algumas fotos de seu rosto, tiradas à distância. Com esse material, produzido sem o consentimento do garimpeiro, publiquei a reportagem na Veja”, descreve. Não passou muito tempo até que a resposta chegasse. “Alguns dias mais tarde, recebi um telefonema da redação de São Paulo: uma fonte anônima avisara a revista de que o garimpeiro tinha contratado um pistoleiro para me matar”, relata. Laurentino ficou pasmo, assustou-se. Felizmente, nada aconteceu com ele. Meses depois, o mesmo garimpeiro foi acusado do assassinato de posseiros no sul do Pará. Ele está foragido, acredita o jornalista.

O explorador de minérios fugira de sua família em busca da fortuna de Serra Pelada. Para não ter que repartir o ouro, evitara, durante todo o tempo, sua exposição na imprensa. “O pior é que, com a publicação da matéria na Veja, a mulher dele descobriu mesmo que o marido havia ficado rico e entrou na justiça pedindo metade dos seus bens”.

 

O mercado e o jornalista

 

Apesar do ar sedutor exalado do ofício jornalístico, muitos estudantes de comunicação estão receosos com a profissão que tentam seguir. O motivo: a fama de oferecer baixo retorno financeiro. Mas será que é válida essa preocupação? “É um erro achar que jornalista, por natureza, ganha pouco e está condenado a enfrentar uma vida de necessidades”, afirma Laurentino. “Tudo depende do talento. O mercado oferece salários bastante atraentes para os talentosos. O que um jornalista não pode aceitar, em hipótese alguma, é se acomodar na vida e na profissão. É preciso ter uma curiosidade insaciável e aceitar novos desafios o tempo todo”, completa.
Segundo Laurentino, o bom jornalista é curioso de nascença. Deve questionar, pesquisar e aprender o máximo que conseguir.

Falar inglês hoje é fundamental, na opinião do repórter-escritor. Assim como o conhecimento de culturas internacionais. De acordo com ele, “quem não tiver experiência internacional terá dificuldade de exercer a profissão daqui para a frente”. O estudante de jornalismo deve ficar atento para competir no mercado atual. “O ideal é que, no começo da carreira, jornalista seja um generalista, evitando se especializar precocemente”, diz. “Quanto mais variada for a experiência no começo da carreira, melhor”, completa o veterano da imprensa. Além dos pré-requisitos necessários, o dever do jornalista nos dias de hoje também deve ser pensado. “Uma das características mais curiosas do mundo atual é que toda pessoa com acesso a um computador se julga no direito – e, às vezes, no dever – de ser produtora de conteúdo. Num planeta em que todos produzem conteúdo, que papel sobra para os jornalistas e editores?”, questiona Laurentino Gomes. E logo explica. Segundo ele, os profissionais da imprensa devem ter a sabedoria de selecionar a informação, torná-la confiável e conquistar essa confiança do público. “As pessoas estão afogadas em informação, mas poucas sabem lidar com ela. Portanto, cabe ao jornalista ajudá-las”.





Rio de Janeiro: paga a propina que a polícia solta.

26 11 2008

Cuidado. Se você passar por uma blitze policial no estado do Rio de Janeiro, fique atento. Os chamados policiais convencionais muitas vezes estão tramando contra você, cidadão comum.

Domingo, final de feriado prolongado. Estávamos saindo da cidade de Paraty em direção a São Paulo. Tranquilamente, não fosse uma parada súbita ocasionada por quatro homens fardados. Um deles de fuzil na mão. Era uma blitze da polícia carioca: Disseram para encostar.

Não tínhamos drogas e os documentos estavam em ordem. Mesmo assim, o cabo da PM carioca queria apreender nosso veículo. O motivo? Disse-nos que o documento do ano de 2008 deveria ser apresentado.

O documento que tínhamos em mãos datava de 29 de novembro de 2007. E o dia em que nos encontrávamos ali, em pleno trevo de Paraty, era 23 de novembro de 2008. Portanto, não havia como mostrar uma válida documentação sendo que esta já estava nas mãos do policial. O licenciamento e a documentação de qualquer automóvel é regularizada anualmente no Brasil. O meu parceiro motorista (eu era o passageiro, na ocasião) ainda tinha alguns dias para poder ajeitar toda a papelada do seu carro. Mas não percebemos nada disso. O cabo queria apreender o carro. Foi enfático. Através de pura pressão conseguiu nos enganar. E eu pensei, depois, que se eu continuasse nessa idiotice, de ser passado pra trás, poderia desistir do jornalismo. Mas se não fosse a conversa do documento vencido, seria outra.

Enquanto a situação se desenrolava, um dos convencionais encontrou uma arma não-letal na porta do motorista. Daquelas que dão choques de muitos volts. O policial então comentou com seu colega de mesmo ofício:

-Dá uma olhada aqui, arma não letal.
E o colega gordo, de óculos escuros, longa cicatriz no queixo e sotaque típico carioca questionou com seu fuzil pendurado em um dos ombros:

- Pra que isso?
- Ah, lá em São Paulo tem muito assalto – disse meu parceiro de viagem.
- E se o assaltante vier com fuzil? Vai dar choque nele?
- Não.

Ou sim, mas não importava. Naquela hora eu já estava desenhando a cena toda na minha cabeça. Tomaríamos choque até altas horas. Isso se não tivesse acerto. Mas logo raciocinei e pensei que aqueles policiais não fariam tal crueldade. Pelo menos não ali, na entrada da cidade. Mesmo assim ficava relembrando casos envolvendo a policia carioca. Coisas que eu havia lido nos jonais e que me indignaram na TV. No mínimo – pensei – levaríamos alguns tapas na cara. Portanto que pudéssemos ir embora, até que não seria um mau negócio – como de fato foi.

A arma de choque não empolgou os oficiais, que a deixaram de lado após insistentes apertadas de botão.

O cabo que mandou parar o carro continuava insistindo na apreensão. Mas, depois de um tempo de revistas (ele queria de qualquer forma encontrar drogas no porta-malas) chamou meu parceiro motorista para uma conversa de canto. Perguntou se não queríamos resolver logo a situação. Sim, foi a resposta. Meu camarada disse que tinha 50 reais na carteira, e o oficial da Polícia Militar do Rio de Janeiro pediu mais, alegando que teria que dividir o dinheiro com os outros três gambés. Resultado: R$ 100,00 de propina solicitada, e não oferecida.
Depois do acerto, meu parceiro ainda ouviu a prosa: “Isso é coisa de homem. Você nunca foi parado aqui. Você nunca conversou comigo”.

Seguimos com a documentação em ordem depois dessa pequena rasteira passada pelos homens da lei. Fomos liberados. Ganhamos a liberdade de novo depois de deixar uma taxa para a  policia que corre perigo por salário baixo e ganha dinheiro através de uma autoridade concedida por um governo ausente. Aqui é o Brasil, parceiro. Para tudo, dá-se um jeitinho.





Impressões de uma reportagem: “Projeto da Prefeitura compromete segurança na zona Oeste”

1 11 2008

Fiz uma matéria nesta semana para o jornal da faculdade. Nos bastidores de sua realização percebi coisas curiosas sobre o jornalismo. Primeiro, o mais óbvio. Mas mesmo assim algo que merece discussão, porque toda a obviedade que se vê sobre assuntos importantes acaba afastando a possibilidade da reflexão. Existem fontes que fornecem ao jornalista informações em off. Ou seja, algo que sirva apenas para guiar o repórter sobre o assunto falado. O jornalista não deve, a priori, utilizar tal informação na matéria. Portanto, tem a sua escolha. Se julgar a informação como de interesse público – como na maioria das vezes é – o repórter então publica e perde uma fonte importante. Se preferir conservar a fonte, então deixa de cumprir com parte de seu dever. No meu caso, na matéria que postarei a seguir, tentei mostrar a realidade da informação em off – que escolhi não publicar para não perder a fonte – através de outras fontes que permitissem seus depoimentos publicados. Acho que isso funciona. Mas nada como uma fonte oficial declarando o que o repórter quer ouvir. Enfim. Percebi também que algumas pessoas com quem falei – minha matéria é sobre a faixa de motos da Avenida Sumaré, em São Paulo – modificavam suas posturas originais por conta do repórter, no caso eu, estar em cima de uma moto em grande parte das entrevistas e ter até conversado com as fontes vestindo um capacete. Ora, se o assunto é motoqueiro, como falar mal nessa situação. Outra coisa, tão comentada por muitos jornalistas do planeta, é a inibição gerada pela presença invasora do gravador, no meio do diálogo, separando os interlocutores. Esse aparelho, com certeza, intimida o entrevistado. A seguir, a matéria:

 

 

Projeto da Prefeitura compromete segurança na zona Oeste

O número de acidentes envolvendo motociclistas na Avenida Sumaré, zona oeste de São Paulo, aumentou desde a implantação da faixa exclusiva para motos nos dois sentidos da via. Moradores e funcionários de empresas da região reclamam da falta de segurança e garantem a ineficácia da tentativa da Prefeitura de melhorar o trânsito no local. “O número de acidentes aumentou depois da faixa. Eu estou aqui há 28 anos e nunca vi tanto acidente como agora”, afirma o frentista José Sebastião – com um olho no gravador e outro na avenida onde fica o posto de gasolina que lhe garante o sustento – sobre os últimos meses desde a implantação da obra, em 2006. “Em um ano e meio eu já vi mais de 50 acidentes aqui. Quase todo dia tem um”, completa. De acordo com Sebastião, o que gera a maior parte dos acidentes é o fato da pista reservada aos motoqueiros ser muito estreita, sem permitir espaço para possíveis desvios de emergência. Há quem concorde. “A pista é muito estreitinha, tinha que ser mais larga”, desabafa o motociclista Edicarlos Vieira dos Santos. Segundo ele, muitos pedestres invadem a faixa exclusiva, que beira a calçada, e outros motoristas desatentos acabam ocupando algum espaço no decorrer da avenida. Mesmo com tantos obstáculos, Edicarlos sente-se mais seguro quando transita pela via reservada – assim como os demais motociclistas consultados pela reportagem.

Para Alcione Nalberto, também frentista de um posto instalado na Sumaré, a contribuição maior para o aumento no número de acidentes vem da imprudência dos paulistanos no trânsito. Tanto dos motoqueiros, quanto dos motoristas e pedestres. “Eu vejo pedestre bem desligado atravessando a pista. Por isso tem acidente. Todo mundo fala dos motoqueiros, mas a culpa é de todos”, afirma. Comerciantes do local apontam o cruzamento da Rua Bartira com a Avenida Sumaré como um dos mais perigosos da região. Ali, segundo Edmilson Conceição, funcionário de um estabelecimento do bairro, muitos carros fazem a conversão proibida para alcançarem o sentido centro da avenida e acabam invadindo a faixa exclusiva. Resultado: as colisões são inevitáveis. “Hoje mesmo teve um carro que atropelou um motoqueiro aqui na frente. Acontecem muitos acidentes nesse cruzamento, já vi até três em um dia”, revela a frentista Alcione, que apesar de assistir as batidas de camarote – o posto em que trabalha fica em frente ao cruzamento-perigo – avalia a implantação da faixa como uma melhoria para o trânsito.

Observando por outro ângulo a obra da gestão do prefeito reeleito Gilberto Kassab, os motoristas que passam todos os dias pela Sumaré aprovam a medida. “Acho que facilita tanto para vocês, como para nós”, afirma o taxista Marcos Coimbra, após avistar o repórter em cima de uma moto. E completa: “Deveriam fazer mais faixas como essa”. O carteiro Ronaldo Silva, pedestre assíduo da região, afirma que a exclusividade de uma via para motos contribui com o trânsito pelo fato dos corredores entre os carros permanecerem vazios. “É mais prático, o pessoal respeita bem. Nunca vi acidente”.

 

O outro lado

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a faixa exclusiva para motos que tem início no final da Avenida Henrique Schauman, percorrendo toda a Avenida Sumaré e com fim na Praça Marrey Junior, em Perdizes, é um projeto experimental da Prefeitura. A implantação de novas vias reservadas aos motociclistas está em fase de estudos pela administração municipal. Se depender do vigilante Célio Roberto Oliveira, que trabalha há quase dois anos em uma agência bancária da Sumaré, os projetos já podem ser interrompidos. “Mais faixas como essa não resolveriam o problema. Elas prejudicam muito o trânsito. Depois que construíram essa aqui, os acidentes só aumentaram”. A maioria das colisões, segundo apurou a reportagem, envolve pedestre e motociclista, que sem chance de desvio, acaba atropelando os transeuntes desatentos. A invasão dos carros na pista reservada às motos também ocasiona grande parte dos acidentes. De acordo com a CET, os motoristas que invadem a faixa exclusiva cometem infração grave, o que significa o pagamento de multa no valor de R$ 127,69, mais punição de cinco pontos na carteira de habilitação.

“Falta uma fiscalização mais rígida na avenida. Se colocassem câmeras, talvez resolvesse”. A afirmação partiu da frentista Gilvania Guedes, que trabalha há sete anos na Avenida Sumaré. “De lá pra cá aumentou bastante o número de acidentes. Logo que colocaram a faixa, uma senhora foi atropelada e morreu”, afirma. Segundo a CET, apenas um radar fixo, que mede a velocidade dos veículos, está instalado na Avenida Sumaré, próximo aos viadutos da Avenida Doutor Arnaldo. A instalação de novos radares móveis – daqueles que permanecem sobre um tripé – está em andamento.

No início do ano, a Prefeitura ensaiou uma nova pista exclusiva na Avenida 23 de Maio. Também como teste, a obra foi feita de maneira improvisada, com agentes da CET que enfileiravam cones para separar os carros das motos, reservando uma das faixas da avenida para os veículos de duas rodas. Os motociclistas aprovaram, mas o trânsito de automóveis travou. O Prefeito Gilberto Kassab e o secretário de Transportes do município, Alexandre de Moraes, resolveram acabar com o projeto, que não durou mais de uma semana. Os engravatados alegaram que o aumento no índice de lentidão já era suficiente para suspender os testes.





Recomendações para o cultivo do espírito. Acrescentem…

21 10 2008

Escrevi este texto há algum tempo. Recoloco-o aqui por uma razão simples. Desejo que mais pessoas leiam e, agora, na capa do blog, fica mais fácil. Peço que acrescentem os possíveis tópicos faltantes, se pensarem em algo. Valeu.

 

O corpo definitivamente está ligado ao espírito. E vice-versa. E antes que você questione, espírito nada mais é que o seu pensamento. A sua energia. Você em uma forma que não é física. Sem maior polêmica, sem maiores discussões. Religião não entra nessa história. Espírito, alma, matéria etérea. Existe e precisa de cuidados. Necessita evoluir.

Para isso, coloco à disposição dos seres humanos que têm a chance de usufruir dessa aldeia informacional (a Internet) minhas humildes compreensões sobre o assunto.

Antes de uma boa alimentação e convivência familiar amigável, quero recomendar outra coisa: a produção de registros pelo ser humano. Seja pela arte, pela escrita ou por qualquer canal, o homem precisa produzir. Precisa registrar. Qualquer informação. Acredito que isso traga a evolução para o espírito.

Uma alimentação equilibrada é essencial. Mas eu vou além. Como alguém já me recomendou algum dia, através de algum registro que li, eu repito: as pessoas devem ter um contato maior com o alimento. Cheirar, sentir a textura, observar, antes de comer. Não sei como explicar, mas tente fazer isso. É diferente. O corpo sente e consequentemente o espírito absorve melhor o fruto da natureza.

Natureza. Tenha contato freqüente com a natureza original das coisas. Deite na terra. Suba numa árvore. Abrace um animal. Ou qualquer outro contato imediato mais criativo. O que ocorre, e que também consegui captar por experiências próprias, é uma troca de energias. Isso não é mágica nem tampouco algo improvável. Pelo contrário. Pense na ciência ou na tecnologia. É simples, as energias são tão concretas quanto um pensamento. Por que você pensa? O que é um pensamento? Pare para pensar. Energias são a essência das relações humanas e dos cuidados que devemos ter com o corpo e espírito.

Pratique exercícios físicos. Transpire. Você saberá o que isso pode te trazer depois de suar e repousar sobre a Terra. Por favor, não se acomode com a preguiça. Um passo te transforma da água para o vinho. Vá por impulso, foda-se. Você não precisa ficar juntando coragem para sair correndo por aí. Faça isso algumas vezes por semana e notará uma diferença inestimável no comportamento da sua mente.

Pratique exercícios mentais. Leia. Escreva. Pense, discuta, converse. Sua mente é como seu corpo. Quanto mais você estuda ou passa a entender assuntos que desconhecia, mais você caminha para a evolução. E é o objetivo de cada um. Não importa se você tem um pensamento depressivo sobre isso. Ou cético-pessimista. Se você não se mexe nada se mexe por você. Tudo fica estagnado. Deixe seus pensamentos egoístas sobre as coisas para trás. Encare isso como a essência da sua vida. Você não pode mudar e isso não é ruim. É como o vento, o mar ou a lua. Você não pode mudar. Aproveite.

Mantenha a tranqüilidade mental. Qualquer coisa que você faça, faça com tranqüilidade. Com calma. Assim conseguirá um resultado além do esperado. A tranqüilidade permite a exposição sincera e original do seu eu. É simples. Simplicidade traz satisfação. Tente ser calmo em qualquer situação. Nem sempre é possível, claro, mas se conseguir viverá mais satisfeito.

Expresse seus sentimentos de alguma forma. Nada que está preso pode se tornar saudável. Se você tem dificuldade de expor seus problemas pessoais para quem precisa ouvir, exponha-os para outra pessoa. Uma terceira que possa lhe oferecer conselhos. Ou escreva. E publique, ou rasgue ou queime. Mas coloque-os para fora. Encontre alguma maneira. Você não pode viver com isso.

Conheça-te. A ponto de conseguir viver sozinho. De conversar sozinho. De poder sair sem companhias e não se sentir de alguma forma prejudicado por isso. Tente saber sobre seus limites. Você já passou por muitas experiências na vida e, no fundo, você sabe tim-tim por tim-tim do que é capaz e do que não é. Se quiser superar limites, treine. Estude, ensaie. Não queira se expor a algo que não combina com você. Seja simples e sincero. A sinceridade lhe trará a força que precisa.

Respire. Sinta seu corpo absorver o ar. O oxigênio é um santo remédio. Controle a sua respiração e, assim, controle sua energia. Mantenha os pensamentos inertes e espontâneos. Leves. Suaves. E encorpados. Se é que alguém consegue imaginar o que eu quis dizer.

Isso não é auto-ajuda. Apenas é o que percebo por aí, vivendo. E tento passar para os outros. Todos. Tente aplicar pequenos detalhes em sua rotina e perceba diferenças. Para qualquer ação humana, tudo começa no espírito.

 





Animais de rua são acolhidos em Paraisópolis – texto livre

10 10 2008

 

Peguei minha moto e fui atrás da matéria. No horário de almoço do trampo. Na vida de um estagiário, esses encaixes são necessários. Cheguei à rua que é considerada o palco do maior número de assaltos à mão armada do Morumbi. Subi, desci, parei num posto.

- Onde fica a ONG dos animais? É uma casa cheia de cachorros. – perguntei.

- Ah, a dos cachorros? Fica ali em cima, segunda à esquerda. Você vai ver, é num portão azul. – respondeu o frentista.

Cruzei a rua novamente, em frente a um posto policial móvel, e subi. Virei na segunda rua à esquerda, na boca da favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo.  Acho que a primeira é a de Heliópolis. Fui passando e procurando, além do portão azul, qualquer rosto suspeito. Não é preconceito, mas minha moto ainda não tem seguro. Estava tranqüilo, achei a “casa dos cachorros” e fui logo estacionando. Minha missão? Falar com a ONG AILA (Aliança Internacional do Animal), que acolhe animais de rua da capital, dando comida e abrigo até o próximo dono que adotá-los. A matéria é para o jornal da faculdade, impresso e online, e partiu da pauta coletiva “São Paulo: problemas e soluções”.

 

A minha entrevista – marcada com antecedência, como faço raramente – seria com Marta Giraldes, a coordenadora geral da AILA. O nome da organização remete a uma sigla que nada tem a ver com abreviações. “Aila” é a pronúncia do nome da fundadora da ONG, que se chama Ila Franco. Um detalhe que Marta me revelou logo no começo da entrevista.

 

Cachorros estavam por todos os cantos da ONG. “O cheiro? Ah, depois de um tempo você acostuma”, me explicou uma das voluntárias. Realmente o cheiro nas salas de recuperação de animais operados era muito forte. Mas inevitável. Fui dar uma volta de reconhecimento no local. Quando subi para a entrevista, no escritório de Marta, fiquei impressionado. Sete ou oito cães dominavam o local. Subiam na mesa do computador, disputavam uma bolinha verde até subirem nas cadeiras giratórias, patinavam pelo chão de taco lustrado em alta velocidade. Uma algazarra barulhenta. Disseram-me que aquilo era normal, cotidiano. Logo imaginei que faria a entrevista cercado dos melhores amigos do homem. E não foi diferente.

 

Marta me disse que aqueles animais todos, que estavam por ali, seriam oferecidos para adoção. Mas como não há tantas pessoas interessadas em adotá-los, muitos são levados para um sítio sustentado pela ONG em Cotia, município da grande São Paulo. Lá estão mais de mil animais que consomem cinco toneladas mensais de ração. De acordo com a coordenadora e protetora dos bichinhos, a ONG só tira o sustento das consultas veterinárias realizadas na própria entidade, que funciona como uma clínica popular, oferecendo serviço profissional a preços quase simbólicos. De maneira mais direta, enquanto madames do Morumbi pagam cerca de 120 reais a consulta em um veterinário com cara de Pet Shop nova iorquino, a AILA cobra 30 reais para efetuar o mesmo serviço. Mas o fato de acolher animais de rua doentes e mal tratados, e de estar localizada numa das maiores favelas da cidade, afasta a clientela preconceituosa da zona Sul.

 

Conheci cachorros e gatos com experiências de dar inveja à Indiana Jones. Se soubessem falar, seriam como livros ambulantes. Críticas ao comportamento ignorante do ser humano. Um deles, o cachorrão que latia para mim quando subi para fazer a entrevista, não tinha a perna esquerda traseira e se arrastava para chegar aos lugares. Triste? Infeliz ou cabisbaixo? Não por isso. “Os não-humanos se adaptam”, explicou Marta. Realmente, repare. Animais não são como seres humanos. Se você ou eu perder uma perna, entraremos em depressão por alguns meses até que, talvez, nos adaptemos. Os animais sofrem, mas se adaptam facilmente a qualquer situação. Uma qualidade que poderia ensinar a ideologia de toda uma nação. Talvez.

 

 

Em contato com o Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, órgão diretamente ligado à Prefeitura do município, questionei sobre o número de animais abandonados nas ruas da cidade. Não há este levantamento. Questionei também, por telefone e e-mail, sobre a captura dos animais abandonados, o destino deles, o procedimento adotado pelo órgão e sobre a prática da eutanásia. O máximo que fizeram foi me encaminhar um release pré-cozido falando sobre a posse responsável do animal. Um texto que alertava os donos sobre o abandono e maus tratos sofridos pelos animais. Era algum programa desses com a cara da Prefeitura. Bacana. Respeito as informações e até as utilizo. Mas minha matéria não é palanque e apesar de eu ser um estudante, não sou otário. Mas creio que essas reações das fontes oficiais farão parte da minha rotina profissional. Me lembrei de como deveria ser bom atuar como jornalista em 1920, quando telefones eram raros e emails inexistentes. Nada como falar com uma fonte ao vivo e à cores. Ou, à expressões faciais, como deve ser.

 

Meu exemplo de diferenças entre reportagens livres e comprometidas – creio eu – já está dado. As informações ausentes neste texto estão no texto abaixo. São três da manhã e vou nessa, afinal, amanhã é sexta-feira e estarei gravando matéria lá na Galeria do Rock. Eta vida boa essa de jornalismo…..

 

(só espero não parar num departamento de comunicação corporativa fazendo textos para agradar algum cliente magnata sem vergonha que ganha dinheiro em cima da desgraça cultural do povo.). Fui.

 

 

 

 

 

 





Animais abandonados são acolhidos na segunda maior favela da cidade

9 10 2008

Bruna Somlo

crédito: Bruna Somlo

Cinco toneladas de ração por mês. É o que consomem os cerca de mil animais adotados pela Organização Não-Governamental AILA (Aliança Internacional do Animal). Localizada na favela de Paraisópolis, zona Sul de São Paulo, a entidade acolhe cães e gatos – muitas vezes em situação delicada – encontrados em pleno abandono nas ruas da capital. Fornece assistência médica, abrigo, comida e um lar fixo, através da conquista de futuros donos que desejam adotar um animal de estimação. Para isso, mantém uma equipe de veterinários e “protetores”, além de um sítio para onde são encaminhados os animais já cuidados.

 

Cercada por cachorros de todas as raças – na maioria das vezes misturadas em um único bicho – a coordenadora geral da ONG, Marta Giraldes, diz que não recebe verba de nenhuma instituição e que todas as despesas são supridas pelas consultas veterinárias realizadas pelos próprios profissionais da AILA. “Não recebemos ajuda financeira. Mantemos a ONG através das consultas feitas em nossa clínica, onde cobramos preços populares dos clientes que trazem seus “quatro patas” aqui”, afirma. O nome da entidade não representa nenhum braço internacional. Apenas destaca a luta da organização pela internacionalização dos direitos dos animais.

 

A equipe é composta por dois veterinários profissionais e por voluntários que realizam desde o banho dos cachorros até a assistência em cirurgias graves. Apesar da qualidade do atendimento e dos nove anos de existência, Marta revela que as pessoas têm muito preconceito em relação à ONG, por abrigar animais de rua e pela sua localização. “Gostaríamos de atrair para a clínica as pessoas que têm preconceito, para conscientizá-las da nossa luta”, diz.

 

Segundo a coordenadora, a falta de subsídios anula possibilidades únicas no combate ao abandono e aos maus tratos sofridos pelos animais. “Temos um centro cirúrgico itinerante que está parado. Um ônibus equipado que não roda por falta de verba”, afirma. De acordo com Marta, o veículo tem capacidade para atender 100 cães por dia, além de controlar a população da espécie através da castração.

 

Marta Giraldes cuida de animais há décadas. Quando completou 18 anos, a primeira coisa que fez foi tirar carteira de motorista. Mas ao contrário dos desejos jovens de se ter um carro para cair na farra, enchia o porta-malas do automóvel de ração e água e distribuía para todos os animais que encontrava vagando pelas ruas da cidade. Sua contribuição já tirou milhares de cachorros e gatos do abandono. A protetora – como são chamados os que colaboram com a causa – já trabalhou com pessoas em uma empresa, mas desistiu. Confessa que lidar com animais, além de ser mais fácil, é muito mais prazeroso. “Os não-humanos não guardam rancor”, afirma. Hoje, ela apresenta palestras em universidades e colégios, onde busca conscientizar os mais jovens sobre os direitos dos animais. “Acredito que os animais não estão no mundo para servir o homem, mas para conviver com ele”.

 

A realidade na rua

 

É na segunda maior favela de São Paulo que a AILA recebe frequentemente casos gravíssimos de animais mal tratados. Não foi diferente com Pastel, uma rottweiler adulta encontrada em uma situação desesperadora.

 

Pastel devia ter outro nome quando caminhava pelas ruas da cidade, perdida – ou abandonada, como muitos cães e gatos que são adquiridos com carinho quando filhotes e descartados cruelmente quando adultos. Não se sabe ao certo.

Quando ficava com fome – algo que era comum na rotina da cadela – ia farejar restos de comida perto de uma barraca que vendia pastéis. A dona do estabelecimento, uma feirante idosa, não gostava da presença da rottweiler, que incomodava os clientes. Todos os dias ela espantava Pastel dali. Mas a cachorra sempre voltava em busca de alimento.

 

Um dia, a dona da barraca se irritou. Esperou os clientes irem embora e chamou a cachorra para perto do tacho onde se fritavam os pastéis. Sem hesitar, a feirante virou o recipiente repleto de óleo fervente em cima do animal. Pastel foi encontrada com a pele aos pedaços e quase cega. Segundo a coordenadora da ONG AILA, Marta Giraldes, “ela chegou à ONG derretendo. Foram meses de tratamento. Conseguimos salvar os olhos e hoje ela vive saudável no sítio”. A coordenadora entrou com representação contra a feirante no Ministério Público e aguarda decisão. Além de tratar dos animais, a entidade luta pela punição dos acusados de ferir os “quatro patas” – como define Marta.

De acordo com o Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, o abandono ou a prática de maus tratos contra o animal é crime ambiental. Muitos donos observam seus animais doentes, velhos ou agressivos e tentam descartá-los, contrariando diversos artigos de lei municipal e federal. Ainda segundo o CCZ, não existe um levantamento sobre o número de animais abandonados na cidade.


Serviço:

Aliança Internacional do Animal – AILA
Rua Pasquale Gallupi, 900 – Jardim Paraisópolis, São Paulo – SP.

www.aila.org.br





Texto comprometido X Texto livre

9 10 2008

Entre o texto que vai para o jornal e o texto que o repórter produz livremente existe uma bela de uma diferença. Não sei bem qual é, se está focada nos limites impostos pela diagramação do jornal ou pela própria definição do conteúdo. Por isso, irei publicar em seguida uma matéria que escrevi para o jornal impresso da faculdade (Jornal Momento) e também para o jornal online (Momento Online – www.fiam.br/mol), e uma que escreverei livremente para o blog. As duas abordam a mesma pauta: ONG que cuida de animais abandonados. Minha intenção é expor as diferenças entre a reportagem livre e a comprometida. Sei que uma está completamente ligada à detalhes que não são considerados nos veículos gerais de comunicação. Estão mais para livros e grandes séries de reportagens. Mas dizem que não é todo assunto que merece tal atenção. Eu penso que cada assunto tem sua importância reservada, basta encontrá-la. Basta explorar. E é isso que faz o jornalismo literário.

Observem as diferenças.