Há três gerações no paraíso

31 05 2008


Seu Maneco e esposa.

O morador de uma praia isolada conta como vive com sua família há mais de 50 anos.

Manuel dos Remédios, o Seu Maneco, é o chefe da única família residente em Martins de Sá, um paraíso distante situado na Reserva Ecológica da Joatinga, no Estado do Rio de Janeiro. A praia fica numa península isolada, onde funcionava uma fazenda de escravos no século XIX.

 

Sentados numa mesa de madeira, feita à mão, e em frente uma parede construída de conchas e barro, começo a conversar com Seu Maneco, que me conta histórias impressionantes de sua vida. Ele é o terceiro de três gerações que se firmaram na praia de Martins de Sá. Seus filhos já fazem parte da quarta geração. O avô de Seu Maneco foi o primeiro a chegar à área, que era “toda de mato fechado”, após a saída dos escravos e o fim da fazenda que, hoje, só se vê em ruínas.

 

O humilde pescador relata suas histórias verdadeiras em tom de discurso. Seu pai, Roque Caçador, era parente de índios e morou em Martins por quase toda sua vida. Na época da ditadura militar que assombrou o Brasil a partir da década de 60, um coronel quis tomar as terras de Roque, que mal sabia o que acontecia no país. E conseguiu. “Depois disso, tivemos que nos mudar para Caruçu das Pedras, onde moramos por 10 anos”, lembra Seu Maneco. Após dez anos na praia vizinha a Martins de Sá, Roque pôde voltar com a família para seu paraíso conquistado. O coronel faleceu e deixou as terras livres para os verdadeiros moradores.

 

Seu Manuel me contava da abundância de peixes que o mar oferecia nos anos 50. “Dava para pegar peixe com a mão. Agora que tem rastreador, os peixes se escondem. Cada vez mais fundo”. Enquanto eu me impressionava com a lógica do seu argumento, Seu Maneco recebia mais um turista em seu camping, que nada mais é do que um espaço em seu quintal. “Bom dia Seu Maneco!”, exclamou o recém-chegado. E foi recebido de braços abertos.

 

Após essa pequena pausa, o dono do camping me alerta para uma situação preocupante. Segundo ele, muitos representantes de construtoras, multinacionais e condomínios fazem ofertas para a compra do terreno que abriga a praia. Mas Seu Maneco não arreda o pé. Jamais aceitou qualquer oferta milionária que lhe ofereceram. E argumenta: “E se isso tudo acabar? O dinheiro vai comprar?”. Seu Maneco possui todos os direitos que lhe são cabíveis por lei, como morador da área por mais de 50 anos. “A geração de hoje vai se complicar porque só pensa em dinheiro”, completa.

 

Manuel dos Remédios, antes conhecido como Manuel do Roque, mora hoje com seus filhos, netos, genro e sua mãe, Capitulina dos Remédios. Dona Capitu tem 102 anos. Uma vez, conta Seu Maneco, ela fazia a trilha da praia vizinha para Martins quando encontrou dois turistas seguindo seu mesmo caminho e se ofereceu para guiá-los. “São mais de três quilômetros de subida e descida nessa trilha aí. O casal de turistas achou que minha mãe ia dar trabalho para eles”, conta. Foi quando Dona Capitu chegou brava em casa: “Ai meu deus! Tem um casal vindo aí, mas eles são tão molengos para andar. Eu deixei eles lá em cima”. E ela ainda vinha carregando uma sacola de roupas, assim como os dois visitantes. Seu Manuel ainda diz que Dona Capitu se enfia na mata em busca de lenha. “Ela fica me pedindo pra ir buscar e eu esqueço. Quando vejo, ela já está voltando com a lenha embaixo do braço”. Dona Capitu acorda cedo e a primeira coisa que faz é acender o fogão. “Em casa que não tem fumaça cedo, é porque não tem comida”, afirma a mãe de Manuel.


“Não podem ficar mais de dez pessoas morando aqui”, explica Seu Maneco. De acordo com o que diz, a fiscalização da reserva ecológica barra a presença de mais pessoas no terreno. Um visitante pode ser considerado morador se ficar mais de um mês morando na área. E isso acontece bastante. “Tem filho que fica aqui mais de mês e não avisa a mãe. Dizem que não querem voltar. Já recebi muitos pais bravos aqui que vêm buscar os filhos “fujões”. Mas depois que eles olham esse paraíso, eles se acalmam”, relata Maneco. E até questionam: “Seu Maneco, o que tem aqui que faz com que eles não queiram voltar?”. Seu Maneco nunca sabe o que responder.

 

Nas épocas festivas do ano, o camping costuma lotar de barracas. Porém, Seu Maneco é claro quando estabelece regras. Ele espalha placas por todo o espaço reservado para o acampamento: “Quer fazer barulho? Vá até a praia”, “Aqui não se fala palavrão” e “Não abuse de bebidas e drogas. Se embriague da natureza”. O antigo pescador conta que lutou para poder comprar uma lancha e levar todo seu lixo para Paraty, a cidade mais próxima que cuida da reciclagem e encaminhamento do material. “Aqui em Martins de Sá eu não arranco uma árvore. Não têm nada poluído aqui. Tudo é puro”, esclarece.

 

Enquanto eu me coçava e lutava contra os pernilongos, conseguia registrar as histórias que envolvem aquele paraíso escondido. Eu acabara de fazer um almoço numa fogueira improvisada. Estava de barriga cheia e fui andando, desviando das plantas, até a casa de Seu Maneco. Quando o ponteiro do relógio apontava às 6 horas, já era noite. E eu mal conseguia enxergar minhas anotações. Enquanto me despedia de Seu Maneco, as pessoas caminhavam com suas lanternas para baixo e para cima. Para o desfecho da entrevista, fiz uma última pergunta curiosa: “Você não tem televisão aqui Seu Maneco?” – e ele, um tanto sem entender sobre o assunto, respondeu: “Vou ver se coloco uma aqui. Mas não vai passar coisas da cidade, não. Só coisas da natureza”.